Pouco sono e estimulantes: risco na estrada

Acidentes cresceram 41% em 2004. Jornadas de mais de 12 horas de trabalho, menos de 6 horas diárias de sono e uso de estimulantes, o famoso rebite, para ficar acordado. Esse comportamento, que muitos caminhoneiros admitiram ter em pesquisa realizada no Sistema Anchieta-Imigrantes, vem fazendo mais do que mal à saúde de cada motorista. Está contribuindo para o aumento dos acidentes.

Em 2004, ocorreram 2.192 acidentes envolvendo caminhões nas estradas administradas pela Ecovias – 40,78% a mais do que em 2003, quando houve 1.557 casos. No período, o volume de tráfego desse tipo de veículo cresceu 12,5%. Neste ano, entre janeiro e março, já são 538 (82 a mais do que no mesmo período de 2004). “Com o aumento nas exportações, aumentou o volume de caminhões no sistema e houve um crescimento não só no número de viagens, mas no de acidentes”, explica o engenheiro Fábio Ortega, que coordenou a pesquisa para Ecovias. Ele disse que o motorista vive em situação de stress. “Isso porque geralmente ele trabalha muito, ganha por produção, por viagem. E, na Anchieta e na Imigrantes, como o percurso é de apenas 70 quilômetros até o Porto de Santos, acabam fazendo várias viagens ao dia.”

O estudo, realizado entre 5 e 8 de abril com 630 motoristas – 78% caminhoneiros -, foi feito em parceria com a Universidade Metodista. Tudo começou com a realização de exames de glicemia, colesterol e pressão durante uma campanha na semana da saúde. “O objetivo era orientar o caminhoneiro em relação a sua saúde, um fator gerador de acidentes.”

Estimulantes

Mas os dados mais curiosos sobre o comportamento dos motoristas acabaram aparecendo em um questionário anônimo que eles foram convidados a responder. Do total de caminhoneiros entrevistados, 13,5% confessaram usar algum tipo de estimulante para se manterem acordados ao volante e 4% admitiram fazer uso de bebida alcoólica diariamente. O estudo apontou que 54% dormem menos de 6 horas por dia e 67,7% trabalham mais de 12 horas diárias. “Além de ficar mais tempo acordado, boa parte se alimenta mal. Eles prolongam o horário do almoço até emendar com o do jantar. Muitos fazem apenas uma refeição diária”, disse o Biomédico Victor Hugo Bigoli, da Universidade Metodista, um dos responsáveis pela campanha.

Dos entrevistados, 59,1% disseram fazer até duas refeições por dia e 2% admitiram ser apenas uma. Enquanto preparava o almoço – arroz, batatinha e lingüiça – num dos postos de repouso da Ecovias, depois de entregar uma carga de soja no porto, o motorista Luiz Antônio Ponciano, de 48 anos, resumia seus 18 anos de estrada. “Esse momento é uma coisa rara. Se a gente almoça, não janta. Se janta, não almoça. Trabalho de 16 até 20 horas por dia.” Ponciano se recusa a tomar drogas para não dormir. “Prefiro parar e dar umas cochiladas de 15 minutos.” A pesquisa deve ser repetida em outras datas.
Autor:Revista Brasileira de Psiquiatria/Scielo
Fonte:OBID