Substâncias com efeito prolongado escondem efeitos danosos ao organismo

As novas substâncias, com efeito prolongado de duração, escondem efeitos cada vez mais danosos ao organismo humano e, muitas vezes, são subprodutos de alucinógenos já conhecidos, como a cocaína. A polícia paulista apreendeu, na semana passada, pela primeira vez no estado, a chamada cápsula do medo ou cápsula do vento. Similar ao LSD, a droga tem sido usada na Europa no lugar do êxtase e, segundo a polícia, seu efeito pode chega a durar até 30 horas.

A mesma substância, derivada da anfetamina, foi encontrada pela polícia, em 2004, em Santa Catarina. “Chegamos ao traficante depois de prender um usuário em Brasília”, afirma o Chefe do Serviço de Perícia de Laboratório e Balística do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, o Perito Marcos de Almeida Camargo. A droga é vendida em cápsulas transparentes e gelatinosas e com dois gramas da substância cada.
No Acre, a nova febre é o OXI. A droga fez pelo menos 30 vítimas, entre 2003 e 2004, na fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru. As mortes foram constatadas, este ano, pela Rede Acreana de Redução de Danos – Reard, organização não-governamental que trabalha na prevenção de DST/Aids.

Pesquisa da Reard revelou que o OXI é mais letal que o crack. Trata-se do “enferrujamento” das substâncias que estão na folha da coca. Misturada ao querosene e cal, no momento do refino da cocaína, essas substâncias aumentam o grau de letalidade da droga. A Polícia Federal diz que a substância tóxica não passa de cocaína suja e atribui o nome a uma estratégia do tráfico internacional para vender cocaína com um outro nome.

Usuários infantis

A especialista em saúde pública Helena Lima diz que o problema é o nível de sofisticação da elaboração química e o efeito violento no organismo. Coordenadora da pesquisa da Reard, Liz alerta que o “batismo”( como é chamada a mistura) com outras substâncias é tão intenso que a quantidade de coca no final é mínima, mas o efeito no organismo é devastador.

Os pesquisadores se assustaram mais ainda quando encontraram, entre os usuários de OXI, crianças de 9 anos de idade. “Tivemos que descartar um terço dos entrevistados porque eram menores. Trabalhamos com 80 pessoas entre 18 e 35 anos.” Segundo Helena Lima, 25 participantes do estudo morreram de parada cardíaca e overdose, durante o período da pesquisa.

A pesquisadora não sabe se o oxi é retirado da pedra ou da pasta de coca. “Estudamos mais os efeitos e o comportamento dos usuários”, justifica. A droga atinge diretamente o sistema nervoso central. Além disso, afeta a circulação sangüínea e agride vários órgãos, entre eles o estômago. Para rebater o efeito bombástico, os usuários normalmente usam a droga combinada com o álcool, que tem efeito anestésico.

Os técnicos da Reard pretendem realizar apresentações em outros estados sobre os efeitos da nova droga. “Vamos apresentar o quadro do uso de drogas por caminhoneiros, profissionais do sexo e usuários de crack”, detalha Helena Lima. O combate ao narcotráfico tem dificultado o acesso de traficantes a substâncias como éter, utilizadas no refino da cocaína. “Eles buscam novos mercados e usam solventes cada vez mais agressivos”, afirma a Pesquisadora.

O perito da PF ouviu falar em oxi há três anos, mas garante nunca ter constatado a nova droga nas amostras recebidas. “A diferença do oxi está no processo de oxidação sofrido pela cocaína durante o refino”, esclarece Camargo.

Para a Polícia Federal, o que está acontecendo no Acre é uma mudança de mercado. Camargo considera o OXI uma estratégia de marketing. Seria apenas uma forma de refino mais barata para a velha cocaína. “É um novo nome para a mesma droga. Os traficantes fazem as misturas na coca de acordo com o público-alvo. Além das sujeiras de praxe, eles usam substâncias baratas e perigosa s para aumentar volume de droga com menos cocaína”, diz Camargo

Outra novidade no mercado do narcotráfico é o GHB (gama-hidroxi-butirato) depressor do sistema nervoso central que funciona como um sedativo. A droga líquida normalmente é misturada na bebida. “Ela potencializa o efeito do álcool. Sabemos que já chegou no Brasil, mas ainda não foi feita apreensão pela PF”, conta.
Autor: Correio Braziliense
Fonte: OBID