Treinamento para melhorar o atendimento a dependentes químicos

Estratégias para mudança de atitudes, conhecimento e habilidades dos profissionais podem ser importantes na implementação de ações preventivas do uso abusivo de álcool

Tendo em vista os diversos problemas associados ao consumo de risco de álcool, ele é considerado uma relevante questão de saúde pública. Entre 20% e 58% dos pacientes internados em hospitais gerais apresentam problemas relacionados ao uso de bebidas alcoólicas. Ademais, estima-se que cerca de 5% das mortes de pessoas entre 15 e 29 anos, em todo o mundo, estejam relacionadas ao uso de álcool. Estudos demonstram também uma alta prevalência de uso nocivo de álcool em pacientes que freqüentam serviços de atenção primária à saúde, atingindo cerca de 50% entre os homens e 40% entre as mulheres. Por tais razões, tornou-se evidente a necessidade de ações de prevenção secundária para o consumo de risco de bebidas alcoólicas na atenção primária à saúde. Uma das estratégias de prevenção secundária recomendadas é a utilização de instrumentos de rastreamento associados a intervenções breves.

Assim sendo, objetivo de estudo publicado em maio pelos Cadernos de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, foi avaliar o processo de implantação desta estratégia na rotina de profissionais de atenção primária à saúde da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais.

Foi utilizada uma abordagem qualitativa, incluindo a aplicação de entrevistas a cinco gestores do sistema municipal de saúde e a quarenta profissionais que atuavam no atendimento de pacientes em serviços de atenção primária à saúde, associadas à análise de conteúdo e observação participante. Os profissionais dos serviços de atenção primária à saúde participaram de um treinamento com carga horária de 16 horas, que teve como temas: epidemiologia do uso de álcool no Brasil e aspectos biológicos, psicológicos e sociais; critérios para classificação do uso (risco, abuso ou dependência); instrumentos de diagnóstico e triagem; importância da prevenção ao uso abusivo de álcool na atenção primária; dentre outros. Dos profissionais treinados, 9 eram médicos, 14 enfermeiros, 8 assistentes sociais, 1 psicólogo e 8 auxiliares de enfermagem. A idade média era de 40 anos, sendo 80,0% do gênero feminino.

Os resultados indicaram que há dificuldades para a implantação efetiva destas rotinas, tanto em relação aos gestores quanto aos profissionais envolvidos diretamente em sua execução. Quanto aos profissionais, destacam-se a restrição da abordagem a dependentes de álcool e a falta de motivação para trabalhos preventivos. Quanto aos gestores, foram detectadas dificuldades práticas no processo de organização e gerenciamento, a despeito de um afirmado interesse no projeto.

Estratégias que visem mudança de atitudes, conhecimento e habilidades dos profissionais podem ser importantes na implementação de ações preventivas do uso abusivo de álcool. Todavia, isoladamente, o treinamento não é capaz de mudar a prática dos profissionais nos serviços. É preciso alterar a organização do sistema de saúde e o entendimento, por parte dos gestores, da importância de se priorizar tais estratégias. Diferenças na estrutura e organização dos serviços e das práticas em saúde estão associadas a diferentes graus de comprometimento dos profissionais e gestores, em relação às práticas de prevenção e promoção.

Tais estratégias de disseminação deveriam ser implementadas levando-se em consideração tanto o contexto cultural quanto os princípios da organização dos sistemas de saúde locais, buscando, entretanto, ir além das práticas tradicionais. Informações e estratégias devem ser claras, objetivas e pragmaticamente correlacionadas aos conceitos e práticas de saúde coletiva. Uma abordagem centrada nos efeitos biológicos individuais do uso de álcool, desligada do contexto e das crenças que os profissionais possam ter sobre tal uso, torna-se inadequada e/ou pouco efetiva do ponto de vista de sua aplicação à saúde coletiva. Para se atingirem mudanças abrangentes, torna-se também necessário o estabelecimento de alianças entre diversos setores da sociedade.
Cadernos de Saúde Pública, vol.21 no. 3 maio/junho de 2005, 852-861.
Autor: Ronzani, Telmo Mota; Ribeiro, Mário Sérgio; Amaral, Michaela Bitarello do.
Fonte:OBID