Alcoolismo é uma doença corrosiva

Muitos nem admitem ser alcoólatras, abrindo as portas ao vício

Aretha souza – Especial para o Amazônia Jornal

Heraldo Mota de Castro. Cinqüenta e cinco anos. Autônomo. Adorador do álcool (significado da palavra “alcóolatra”, ao pé da letra). Morador de rua há dez anos, ele chegou a Belém quando se separou da mulher. Antes disso, era contador em uma empresa em Camaçari, na Bahia. Agora, vende bombom e cigarro nas ruas de Belém, guarda as roupas em um depósito no Comércio e afirmar ser alcoólatra. “Bebo sempre, mas eu mesmo mantenho meu vício”.
Enquanto conversava com a reportagem do Amazônia Jornal, interrompia a resposta com as frases “sou gentil, sou educado” ou “trabalho direto. Sou correto”. A primeira vez em que ele bebeu foi aos 18 anos, quando entrou começou a servir às Forças Armadas. No início do casamento, afirma, a mulher não reclamava, porém, com o tempo, as crises começaram. “Foram 18 anos assim”, relembra Heraldo. Ele ainda sonha em alugar um quarto.

Perto de Heraldo, na praça da Bandeira, estava Pedro Paulo dos Santos, 45. O tempo, o clima, os problemas e as dificuldades da rua fazem com que Pedro aparente ter mais idade do que declara. Na barriga, há a marca de uma briga: um golpe dado com uma faca por outro homem. Longe, ele relembra o motivo por que veio para a capital paraense, onde chegou em 1970 e, desde aquela época, forçosamente, adotou a rua como lar. A cachaça também foi uma mudança. Em Caviana, vila de Macapá, no Amapá, Pedro trabalhava no roçado com os tios. Não bebia. Começou a provar o álcool “por camaradagem”. Ele comenta que, às vezes, passa um mês sem beber e que, se não conseguir a bebida “não faz questão”. Na verdade, para muitos, como é o caso de Pedro, ela é um artifício para amenizar os efeitos da realidade. A questão é quando o álcool passa a ser mais um problema – até mesmo de saúde pública.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a ingestão excessiva de álcool é a terceira causa de mortes no mundo, perde somente para o câncer e as doenças cardíacas. De acordo com a Associação dos Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), de 3% a 10% dos brasileiros fazem uso abusivo do álcool. No Brasil, o alcoolismo é o terceiro motivo para faltas e a causa mais freqüente de acidentes no trabalho. A doença é a oitava causa de concessões de auxílio-doença e os problemas direta ou indiretamente relacionados ao uso da substância consomem de 0,5% a 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do País.

O tema gerou polêmica no País em maio do ano passado, quando o jornalista norte-americano Larry Rother afirmou que “alguns conterrâneos de Lula começaram (começavam) a se perguntar se a predileção por bebidas fortes está (estaria) afetando sua atuação no governo”. A matéria, publicada no jornal New York Times, resultou na expulsão (depois revista) do jornalista e em críticas à atitude do presidente. O fato fez com que os principais jornais do mundo, que pouco tempo antes tinham se surpreendido com a vitória do presidente-operário, o chamassem de intolerante e autoritário.

Se na vida real, as peripécias de bêbado acabam sendo motivo de transtornos e atitudes impulsivas, na ficção, são os beberrões que, muitas vezes, simbolizam com mais veracidade a realidade social. No Brasil, o funcionário público Joaquim Soares, personagem de Jorge Amado, ao se aposentar, despiu-se dos valores sociais tradicionais e foi ao encontro de liberdade. Entre outros artifícios, conseguiu o queria por meio da cachaça.

A história de quem venceu o vício

Incurável. Progressivo. O alcoolismo faz com o doente perca a capacidade de controlar a vontade. É comum surgirem problemas financeiros e de relacionamento. Os alcoólatras estão mais suscetíveis a problemas psicológicos, entre eles, o homicídio, suicídio e violência. Daí, o motivo de muitos se tornarem moradores de rua. “A família não tem como agüentar o comportamento nocivo do bêbado. Por isso, a tendência é que ele fique sozinho. Apenas os amigos de bar o toleram”, explica A. M., 34, alcoólatra. A história de A. é parecida com a de muitos brasileiros. Por intermédio do pai, aos oito anos de idade provou a primeira bebida. Aos 11, ficou embriagado.

Depois disso, confessou, que ficava no boteco até o dono fechar. Junto a ele, sempre estava uma lata de cerveja. Até os 30 anos, quando decidiu que deveria parar de beber, teve problemas sérios: por quatro vezes foi internado devido ao álcool. Tornou-se violento e foi o causador do fim do próprio casamento. Em diversos momentos, confessou, sentia que amedrontava as pessoas.

Após 14 anos sem beber, A. sabe descrever os males que um bêbado pode causar a si próprio e às pessoas que convivem com ele. Atualmente, é um dos diretores, em Belém, do grupo internacional Alcoólicos Anônimos (A.A.) – fundado em 1935 pelos alcóolatras Bill W., corretor da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e Dr. Bob, cirurgião, em Akron, Ohio. Ele explica que há quatro tipos de bêbado, classificados pela OMS. O primeiro é o bebedor ocasional, bebe de vez em quando. O segundo, o bebedor social: somente em ocasiões especiais. Nenhum deles sofre as conseqüências do álcool. Não se embriagam. O terceiro é o habitual – todos os dias bebe, mas não bebe o dia todo. O último é o doente, o alcoólatra, nunca sabe a hora de parar. A cada embriaguez, a resistência ao álcool aumenta e, conseqüentemente, o intervalo entre uma e outra é menor. Agressivos, na maioria das vezes, os alcoólatras costumam mudar a personalidade com o efeito do álcool, são atingidos financeira, física e moralmente.

Os males de uma droga antiga, com mais de 6 mil anos

A História da humanidade está marcada pelo consumo de álcool. Segundo registros arqueológicos, os primeiros indícios sobre o consumo da droga pelo ser humano datam de aproximadamente 6000 a.C. Porém, os seus efeitos foram conhecidos há muito menos tempo que isso.

As primeiras sensações são euforia, desinibição e sociabilidade. De acordo com a quantidade ingerida, os efeitos passam a ser depressivos, causam a falta de coordenação motora, o descontrole e o sono. Outros efeitos são o rosto vermelho, dor de cabeça, dificuldade de falar e mal estar seguido de vômito.

As principais doenças: cirrose, gastrite, polineurite, anemia, pelagra e úlceras cutâneas. Além disso, ele causa deficiência de vitaminas B1, B2, B6, B12 e C.

O álcool afeta também a parte do cérebro que controla a freqüência respiratória e cardíaca. Durante a gravidez, o álcool pode causar sérias deficiências físicas ou mentais no feto, assim como uma predisposição ao consumo de álcool na vida adulta.
Fonte:Amazônia Jornal