Aids, drogas, riscos e significados: uma construção sociocultural.

O termo risco surgiu no contexto dos jogos de azar, do comércio marítimo, e da análise matemática referente às chances de um evento vir a ocorrer. No decorrer do tempo, o termo foi se consolidando estreitamente ligado ao sentido de possibilidade – positiva e negativa – e à teoria das probabilidades, incorporando, a partir de então, a idéia de escolha racional, até que seu uso se expandiu para a epidemiologia, referindo-se a problemas coletivos.

Fortalecida sua associação com a possibilidade de resultados negativos, o termo passou a expressar danos, coisas ruins e indesejáveis. Alguns autores, ao analisar a noção de risco na saúde pública e na epidemiologia, e na discussão do conceito de risco no âmbito da epidemia de Aids, propõem a substituição do conceito de risco, com o qual se busca calcular a probabilidade de ocorrência de um agravo, pelo conceito de vulnerabilidade, que admite diferentes variáveis, entre elas, as socioculturais.

Pesquisa publicada na revista Ciência e Saúde Coletiva analisou o termo risco associado ao uso de drogas e ao HIV, com o objetivo de mostrar que os riscos são concebidos e controlados no quadro de referências culturais dos grupos sociais, não se reduzindo, como na linguagem racional moderna, apenas à probabilidade de um evento negativo acontecer.
Foram analisados discursos sobre o risco do HIV/Aids e das drogas, extraídos de duas pesquisas qualitativas: uma desenvolvida entre jovens de escolas públicas, e a outra entre jovens participantes em programas e serviços sociais públicos. A primeira teve como objetivo compreender as representações sociais elaboradas pelos jovens sobre o risco de exposição ao HIV/Aids e, a segunda, o risco representado pelas drogas. Nas escolas, os jovens responderam a uma questão sobre o que pensavam e sentiam com relação ao risco representado pelo HIV/Aids.

Já os dados sobre drogas foram extraídos de parte de pesquisa mais ampla sobre o uso de drogas ilícitas realizada com 722 jovens participantes de serviços e programas sociais públicos que oferecem cursos profissionalizantes e atividades sócio-educativas. A coleta de dados também foi realizada por meio da aplicação de questionário. As respostas às questões levantaram, além dos dados qualitativos, dados quantitativos relacionados ao perfil sócio-demográfico dos entrevistados e, dos que relataram fazer uso de drogas, dados referentes a tipo, freqüência e tempo de uso de drogas.

A caracterização de caráter quantitativo dos jovens entrevistados mostrou que a faixa etária predominante situa-se entre 14 e 17 anos e que o universo masculino é o prevalente – 61,36%. A freqüência à escola faz parte da vida de 82,41% dos jovens. Embora a grande maioria dos jovens estude, vê-se que o primeiro grau incompleto é a faixa escolar de 61,08% do universo pesquisado. Apenas 2,08% dos entrevistados referiram ter completado o segundo grau. Os dados referentes à renda familiar mostram que 12,60% das famílias ganham abaixo de um salário mínimo, seguidos de 35,46% que recebem de um a dois salários mínimos. No que concerne ao uso de drogas, 21,61% – 156 jovens – responderam já ter experimentado algum tipo de droga. Destes, entretanto, afirmaram ser usuários de drogas na data da pesquisa 63 jovens, o que equivale a 40,38% dos 156 jovens que revelaram já ter feito uso de droga. Tomado como referência o universo total, este dado corresponde, portanto, a apenas 8,72% dos 722 jovens pesquisados.

Na análise qualitativa dos dados, a pesquisa estruturou-se em torno de dois eixos de análise correspondentes a dois componentes culturais que aparecem com muita intensidade tanto no caso do risco representado pelo HIV/Aids, como no caso do risco representado pelas drogas. O primeiro relaciona-se à projeção do risco para o mundo externo, para um território distante constituído pela figura do “outro”, trata-se do afastamento do risco para além das fronteiras do “eu”. O medo de contágio e as explicações morais e religiosas, por exemplo, serviram para ancorar as representações da Aids como doença do “outro”. O segundo remete à busca do prazer proporcionado pelo sexo e pelas drogas, prazer do qual fazem parte a vertigem, o êxtase, a embriaguez dos sentidos, contrapostos à racionalidade esperada pelo discurso preventivo.

A compreensão sociocultural do risco levou à consideração de que, embora cientes do discurso preventivo relacionado aos efeitos negativos das drogas e do HIV/Aids, os jovens o incorporam de forma particular, na qual aparecem inconsistências, ambivalências e ambigüidades. A linguagem do risco para os jovens é diferente daquela presente na área da saúde. O texto conclui dizendo que os riscos são concebidos e controlados em meio a diferenças culturais e não reduzidos à probabilidade de ocorrência de um evento negativo, como tratado pela linguagem racional moderna. Trabalhar com riscos exige, portanto, abrir mão da busca da invariância, da lógica racional e dos discursos autoritários. Exige ainda estratégias de ação que aceitem a ambivalência das práticas sociais e descartem a expectativa de soluções definitivas.
Autor: Paulilo, Maria Angela Silveira e Jeolas, Leila Sollberger
Fonte: OBID