Tráfico: aumenta participação de mulheres

LOIDE GOMES
A participação de mulheres no tráfico de entorpecentes e em pequenos furtos tem aumentado. As autoridades policiais ainda não dispõem de números precisos, mas constatam no dia-a-dia essa triste realidade. Na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, a quantidade de mulheres presas por envolvimento com o submundo da droga subiu de 48 para 66 nos últimos três meses.

O delegado titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, Daniel Ferreira, disse que nos últimos meses percebeu um aumento expressivo na participação de mulheres com o tráfico. O curioso é que o envolvimento delas é, na maioria das vezes, secundário. Obedecem às ordens dos líderes das quadrilhas, que muitas vezes são o próprio marido ou companheiro ou ainda um outro membro da família.

“Elas geralmente recebem o produto, fazem a dolagem [separação e embalagem] da droga e entregam para os aviões [vendedores]”, comenta o delegado. Muitas vezes os “aviões” são outras mulheres, que recebem um pagamento muito baixo pelo serviço, mas superior àquele que receberiam caso procurassem emprego compatível com a baixa escolaridade.

O pouco estudo é uma característica comum à quase todas as detentas. A psicóloga Marlene Marques, que presta assistência aos internos da PA, disse que a experiência profissional de quase todas é em trabalhos domésticos. Muitas já cresceram em meio à atividade ilícita no seio da família em bairros controlados pelo tráfico como o Caetano Filho (Beiral). “Elas entram nisso por necessidade, mas depois se acostumam com o dinheiro fácil”, analisa a psicóloga.

O desemprego é outra constante que impulsiona a criminalidade feminina, seguida pela dependência da droga. O diretor da Penitenciária, Renato Lang, acredita que essa seja uma das razões para o aumento dos casos de furto. “Para manter o vício, elas acabam furtando também”, destacou.

Das 67 mulheres presas na PA apenas uma é acusada de homicídio – matou o marido que a maltratava. As demais foram condenadas ou esperam julgamento por tráfico de drogas. Entre elas, 32 cumprem pena em regime fechado, três em regime semi-aberto e 32 aguardam a sentença do juiz. Uma delas é venezuelana.

A Folha visitou ontem a ala feminina. Ali, elas transitam livremente e convivem com as crianças nascidas no local e que ainda não foram separadas das mães. Dispõem de uma lanchonete – que recorrem, se houver algum dinheiro, quando não conseguem comer a comida considerada de má qualidade por todas.

Elas não reclamam da diretoria e da carceragem, mas criticam a irregularidade na distribuição de material de limpeza e higiene e da falta de atividades durante os longos dias a espera da liberdade. O trabalho na limpeza, na enfermaria ou na horta conta para a remissão da pena. Cada três dias trabalhados representam um dia a menos atrás das grades.
Fonte:Folha de Boa Vista