Um drible na violência

Antes de encantar o mundo com seu futebol, Adriano fugiu da marcação do tráfico na Vila Cruzeiro

Martha Esteves

Os pés descalços aprenderam cedo a chutar nos campinhos de terra da Vila Cruzeiro, na Penha. Aos 10 anos, de Imperador Adriano só carregava o nome. Vivia na casa de dois cômodos da avó, Vanda, com os pais, primos e sete tias. Ainda não era o “tanque” que hoje atropela zagueiros do mundo todo, quando aprendeu a passar por cima dos perigos das drogas, a driblar as balas nos tiroteios e a fugir da marcação dos amigos que acabaram no tráfico. A mãe do craque da Seleção e do Internazionale de Milão, Rosilda de França Ribeiro, de 40 anos, acredita que Deus salvou o seu filho.

Foi preciso muita luta e vigilância para manter Adriano no caminho do bem. Por anos, Rosilda foi faxineira. Quando o marido, Almir Ribeiro (morto de enfarte aos 45 anos, há um ano), ficou desempregado, no início dos anos 90, ela montou banca de doces, ovos e cigarros em frente à escolinha de futebol Ordem e Progresso, onde o filho dava os primeiros chutes, para melhorar a renda de um salário mínimo.

“Dormia em pé no ônibus, na volta do trabalho. Vendia doces nos fins de semana e costurava para fora. Depois que Almir ficou com uma bala perdida alojada no crânio, após tiroteio, tudo piorou. Minha preocupação era alimentar meu filho e mantê-lo longe do crime”, desabafa. Ela, as irmãs, Almir e Vanda, todos evangélicos, revezavam-se na tarefa de vigiar e aconselhar Adriano. “A gente mostrava a importância de ser honesto e estudar. O futebol ocupou seu tempo e o manteve longe do perigo”, diz Rosilda.

Tímido, ele só trazia problemas quando quebrava vidraças com os chutes. Aos 10 anos, já no time de futsal do Flamengo, quebrou espelho do armário da mãe. Aos 11, fugiu para parque. “Nunca saiu sem avisar. Era exigência. Não dei coça de tirar sangue porque o pai não deixou.”
Fonte:O Dia