Os riscos do porre

Cresce o número de pessoas que bebem muito de uma só vez.
Especialistas advertem que esse comportamento é mais preocupante que o alcoolismo

Por anos, a preocupação da sociedade em relação ao álcool se concentrou na dependência química. O consumo excessivo da bebida, no entanto, não segue apenas esse padrão. Mesmo quem não é dependente pode assumir comportamentos de risco. Uma dessas condutas, cada vez mais comum em todo o mundo, é o binge drinking, consumo compulsivo de álcool em uma única ocasião.

A expressão ainda não tem paralelo em português, mas pode ser entendida como “encher a cara”. É comum ver jovens de porre na saída de festas e baladas. A novidade é o número cada vez mais expressivo de adultos na mesma situação. A pesquisa mais abrangente sobre o assunto, realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) em 2001, já dava sinais dessa tendência. O trabalho demonstrou que na faixa etária entre 18 e 24 anos 6% dos jovens do sexo masculino e 1% do feminino bebem, no mínimo, três vezes por semana. A partir dos 25 anos, a média sobe para 12% entre eles e 2% entre elas.

Mais preocupante ainda é o dado sobre o uso de álcool em quantidade maior do que se pretendia. Nos adultos, esse porcentual é de 16% entre os homens e 7% entre as mulheres. Nos Estados Unidos, o hábito de consumo rápido e exagerado da bebida alcoólica cresceu 35% entre 1995 e 2001. No Reino Unido, esse comportamento representa 40% de todas as ocasiões que os homens bebem; 22% das mulheres. “Morre muito mais gente por beber demais de uma vez só do que por doenças crônicas ligadas ao álcool”, alerta a psicóloga Florence Kerr-Corrêa, da Unesp.

Essa forma de beber, apesar de começar a ser notada por especialistas de dez anos para cá, não é nova. Era comum na Rússia do século XIV e nas cidades que passaram pela Revolução Industrial, no século XVIII. A diferença é que, naquelas sociedades, o mais grave que poderia acontecer com o beberrão era uma queda ou uma briga de rua. Nas atuais cidades, densamente povoadas, os riscos de acidentes são incomparavelmente maiores. Estima-se que 30 mil pessoas morram por ano no Brasil em decorrência de desastres automobilísticos provocados por motoristas embriagados. No mesmo levantamento do Cebrid, 11% dos homens e 4% das mulheres declaram ter problemas pessoais e/ou profissionais pelo uso do álcool. Ainda maior é o número dos que relatam ter passado por situações de risco físico sob o efeito da bebida: 15% dos homens e 4% das mulheres.


O consumo exagerado de álcool vem sendo encarado como um problema sério nas empresas. Não causa espanto o constante uso do álcool entre executivos. A carga de stress que afeta o mundo corporativo é enorme. A tensão se manifesta durante todo o dia, e nada mais natural do que a procura por um relaxante ao final do trabalho. Como o álcool é um eficaz tranqüilizante, um chopinho à tarde é a escolha de 50% dos homens e 25% das mulheres de negócios para fugir do cansaço. A conclusão é de uma pesquisa realizada pelo médico Gilberto Ururahy, com 25 mil executivos que se submeteram a checkups em suas clínicas, de 1990 a 2004. “Quando o stress é crônico, o organismo produz muita adrenalina”, explica Ururahy. “A busca pelo equilíbrio interno faz com que happy hours depois do expediente sejam comuns”, esclarece.

O exagero na bebida tem um enorme potencial para prejudicar a performance profissional. “O executivo perde a capacidade de discernimento e o poder de tomar decisões rápidas”, comenta o headhunter Simon Franco. Mas não é apenas dentro do escritório que o álcool atrapalha. Mesmo que o consumo aconteça em ocasiões que não atrapalhem diretamente o trabalho, o funcionário está sujeito a retaliações. “Não importa que a pessoa fique jogada no balcão de um bar só no fim de semana. O funcionário é, em qualquer ocasião, o cartão de visitas das empresas”, explica Franco. Por isso, a avaliação é constante, ainda que “não-oficial”. “As pessoas acham que esse comportamento passa despercebido, mas não passa”, diz.

O jovem brasileiro também vem cultivando o hábito de se embriagar. Especialistas apontam várias razões para o fenômeno cada vez mais observado no dia-a-dia dos consultórios. “Muitas pessoas associam o grau de masculinidade com as doses de álcool que o jovem consegue tomar”, diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa). “É muito freqüente entre os rapazes a tendência de beber porque acreditam ser uma prova de que são homens de verdade.” A bebida também é considerada uma forma de inserção social entre os mais novos. “Não dá para negar que o álcool cumpre uma função social importante em vários momentos”, diz o neurologista Ademir Baptista, professor da Unifesp. “Na ocasião da entrada na faculdade, por exemplo, a desinibição provocada pela bebida ajuda os calouros a não se sentir deslocados.” Uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu quantificou o abuso de álcool nos estudantes da Unesp. De 3.600 calouros matriculados em 2002, 25% declararam beber muito de uma só vez. Nessas ocasiões, a vontade de ficar bêbado supera o bom senso.


Autor: Revista Época
Fonte: OBID