Mais ajuda para deixar o hábito de fumar

O ato de fumar teve três fases distintas. Na primeira, ele foi visto como um comportamento de adolescente rebelde. Estar com o cigarro na mão era uma afirmação, um rito de passagem para a vida adulta. Depois, passou a ser encarado como ignorância. Quem fumava era tido como pouco inteligente, afinal, as evidências contra o cigarro já estavam ao alcance de todos. Hoje, a dependência em nicotina é considerada uma doença crônica. E, como em todas as doenças, quanto mais cedo começar o tratamento, maiores são as possibilidades de cura.

Largar esse hábito no entanto, não é fácil. Pesquisas recentes mostram que quase 90% dos fumantes desejam parar. Daqueles que encaram o desafio, mais da metade tem recaída em menos de um ano. Menos de 10% conseguem se livrar do hábito sem ajuda médica. E a abstinência, além de causar um grande desconforto físico, e pode desencadear depressão. Também foi descoberto que algumas pessoas se tornam dependentes com mais facilidade, por propensão genética.

Diante dos fatos acima, os especialistas em saúde perceberam que apenas conselhos e ajuda psicológica não seriam o suficiente. Para abandonar a dependência química, os fumantes precisariam de tratamento farmacológico, com acompanhamento médico, e visitas periódicas para avaliar o andamento do processo. Hoje, vários hospitais públicos e privados oferecem esses serviços com altos índices de sucesso. No Programa de Tratamento do Tabagismo, no Instituto do Coração – Incor, de São Paulo, por onde passam cerca de 20 pacientes por mês, 50% deles chegam ao fim do primeiro ano sem o cigarro. A primeira consulta custa R$ 300 e as seguintes, R$ 150.

No Centro de Tratamento de Tabagismo, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que atende uma média de cem pessoas por ano, 80% delas param no primeiro mês. O primeiro ciclo do tratamento, com duração de três semanas, custa R$ 600 e cada consulta de retorno, R$ 60. A maioria dos hospitais faz o trabalho em grupos de até 20 pessoas. Assim, há uma troca de experiências e de estímulos. Já no hospital Albert Einstein, no Programa Álcool e Drogas, todos os encontros são individuais. O formato pode variar, mas os serviços seguem basicamente o mesmo método, baseado em suporte psicológico e farmacológico.

As evidências mostram que a ajuda química pode ser muito eficiente na hora de largar o cigarro. Para os não-fumantes, abandonar o hábito pode parecer simples. Com o objetivo de tornar o processo menos doloroso e evitar uma recaída, os especialistas recomendam um plano de ação. “Parar de fumar desmonta todo o equilíbrio emocional de uma pessoa. E isso é muito assustador”, explica o Pneumologista Ciro Kirchenchtejn, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Os centros para auxílio a fumantes aconselham a seguinte estratégia: estabeleça uma data, comunique aos amigos, familiares e colegas de trabalho sobre sua decisão, planeje-se para superar os desafios, elimine cigarros, isqueiros e cinzeiros de sua casa e saiba o que há disponível para ajudá-lo.

Tratamento

Parar de fumar exige um empenho em duas frentes. Primeiro, é fundamental driblar a dependência química. Ao parar de fumar, o organismo sofre os efeitos da abstinência, que duram cerca de seis semanas -é nesse período que muitas pessoas desistem. Os sintomas são, irritabilidade, aumento de apetite, alterações no sono, cefaléia, constipação e falta de concentração. Para amenizá-los, há alguns métodos cientificamente comprovados. A reposição de nicotina, feita com gomas de mascar ou adesivos, alivia o desconforto físico e diminui a ânsia pela substância.

O uso de antidepressivos também tem se mostrado eficaz no início do tratamento e mais adiante, quando as recaídas são freqüentes. Aplacar a dependência psicológica é, por unanimidade, a fase mais complicada. E mais longa também. A lembrança do cigarro fica registrada para sempre no cérebro, e a vontade é facilmente despertada. Após anos consumo, muitos comportamentos ficam associados a ele. Por exemplo, se a pessoa sempre fuma quando está dirigindo, ela pensará no cigarro ao entrar no carro. É aqui que o acompanhamento psicológico entra em ação -a idéia é ajudar o fumante a identificar esses hábitos e modificá-los com o menor sofrimento possível.

“O apoio é importante para minimizar a dor, motivar o paciente, driblar o ganho de peso e prevenir recaídas”, explica a Cardiologista Jaqueline Issa, Diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo, do Incor. Ela ressalta, porém, que a motivação pessoal é o fator decisivo para o sucesso do tratamento. Os primeiros três meses sem o cigarro são os mais propícios para uma recaída. É nesse período que as pessoas abandonam o projeto. Mas, nos meses seguintes, o índice também é alto. É comum o ex-fumante se considerar curado, no controle da situação, e baixar a guarda. Aos poucos, ele acaba retomando o hábito.

Portanto, a recomendação é manter distância por um tempo até de quem fuma. De acordo com o Psiquiatra Sergio Nicastri, Coordenador do Programa Álcool e Drogas, do hospital Albert Einstein, é preciso ser drástico: “não dê nem uma tragada!”. Mas, caso isso aconteça, a causa não está perdida. O importante é identificar o que desencadeou a vontade e evitá-la no futuro. Um estímulo: muitos ex-fumantes tentaram parar mais de uma vez antes de conseguir.

A dependência

Há vários tipos de fumantes. Alguns precisam do cigarro para reduzir o estresse. Outros o associam ao prazer e fumam após as refeições, as relações sexuais e quando bebem. Há aqueles que consomem um maço inteiro na hora de se concentrar no trabalho. Para cada pessoa, a vontade de fumar é acionada de uma forma. Mas todas elas têm uma coisa em comum: o vício em nicotina. E é ele que torna o ato de fumar compulsivo. Alguns estudos mostram que a substância é tão poderosa que seu efeito chega a ser semelhante ao da heroína e da cocaína. A sensação de prazer e euforia, no entanto, é muito breve. Em apenas 30 minutos, o organismo elimina a nicotina do sangue, o que dá espaço para o desânimo, a irritabilidade, a fadiga e, obviamente, a ânsia de fumar novamente. Para obter o mesmo efeito, o usuário vai necessitar de cada vez mais cigarros. Este é o ciclo da dependência. Mas há outros fatores que levam à dependência química.

O histórico familiar é um dos mais importantes. Quase 90% dos fumantes começaram o hábito na adolescência. Ou seja, a forma como os pais lidam com o fumo pode influenciar o comportamento dos filhos. A genética também tem papel decisivo nesse cenário. Algumas pessoas metabolizam a nicotina muito rapidamente e acabam fumando mais, enquanto outras ficam saciadas por mais tempo.
Autor: Jornal Folha de São Paulo
Fonte: OBID