Livro mapeia drogas usadas da Colônia até hoje

SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo

Graças a Tim Burton, agora sabemos o que moveu o esquisito Willy Wonka a construir a Fantástica Fábrica de Chocolates.

Filho de um dentista rigoroso que não deixava o garoto se aproximar dos doces, o jovem Wonka queria conhecer o que havia por trás do encanto que o chocolate exerce sobre todos. A curiosidade pela droga fez o pequeno Wonka livrar-se dos grilhões dentários (um complexo aparato imposto pelo pai) e sair em busca da fórmula do chocolate perfeito.

Mas, espere, você leu droga? Será que o doce mais popular do planeta, protagonista dessa simpática fábula infanto-juvenil, pode ser tratado dessa maneira?

Sim, segundo a “Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas”. O chocolate figura na classificação “bebidas e mastigatórios excitantes” e, segundo a definição de seu autor, o historiador paulistano Henrique Carneiro, 45, “seu efeito psicoativo é estimulante, contendo a substância excitante teobromina”. Além disso, o uso medicinal do chocolate foi tão importante durante certo período na Espanha que a igreja teve de considerar que sua ingestão não figurava uma quebra do jejum eclesiástico.

Drogas e a demanda dos homens por elas não são novidade, nem na história do homem nem na literatura. Agora, um panorama praticamente pioneiro sobre o assunto no Brasil chega às livrarias com o lançamento de “Álcool e Drogas na História do Brasil”, coletânea de artigos organizada por Carneiro, professor do departamento de história da USP, e Renato Pinto Venâncio, da Universidade Federal de Ouro Preto.

Carneiro conta como as drogas impulsionaram os Descobrimentos, as viagens de circunavegação, a exploração do açúcar e a escravidão moderna. E discute as mudanças pelas quais o termo “droga” passou a ter aqui, desde os primeiros relatos, como “Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas” (1711), do jesuíta André João Antonil, até hoje.

“O conceito de droga, por ser ambíguo, foi pouco estudado isoladamente pela historiografia”, disse Carneiro à Folha. Ele aponta estudos pontuais por aqui, como os trabalhos de Câmara Cascudo (1898-1986) –“O Prelúdio da Cachaça” e “História da Alimentação”– e de Gilberto Freyre (1900-1987) –“Açúcar”, entre outros. “Mas nenhum desses era abrangente ou centrava-se na questão da droga propriamente.”

Depois que a Escola dos Annales, a partir dos anos 30, passou a promover uma abertura no leque temático da história, a coisa mudou, e alguns estudos começaram a pipocar na Europa e por aqui.

Além de trazer temas variados, os textos que compõem a coletânea buscam tratar a droga como objeto histórico, sem minimizar os males que seu uso traz mas também sem ver o tema como tabu. “Há muita desinformação sobre a droga. É uma palavra carregada da noção de fantasma, o que influencia de forma negativa uma visão isenta de preconceito e voltada para soluções reais.”

No livro, a droga surge em seus diversos significados, como substância que oferece prazer ou serve de veneno, como estimulante, especiaria e lenitivo para a dor –não só a física como a psíquica.

Em seu texto, Carneiro busca entender o que chama de “proibicionismo contemporâneo”, ou a maneira como o controle e a repressão à droga passou das entidades eclesiásticas para a ciência e para a medicina, num processo mediado pelo Estado. O historiador constata a utilização de algum tipo de droga em praticamente todas as culturas. “Para Freud, a droga é um fenômeno universal. Possuiria a mesma legitimidade cultural que o sexo e o alimento.”

Carneiro acha que a resolução para o abuso está no autocontrole. “A noção de erradicar, crer que é possível deixar de existir drogas é não só uma visão impossível como tem vocação totalitária, é a idéia de extirpar da cultura um comportamento legítimo.”

Álcool e Drogas na História do Brasil
Autores: Henrique Carneiro e Renato Pinto Venâncio (organizadores)
Editora: Alameda
Quanto: R$ 40 (312 págs.)
Fonte:Folha Ilustrada