Panorama do consumo de drogas nos países da União Européia: dados do Observatório Europeu sobre Drogas e Toxicodependências

De acordo com o relatório de 2004 elaborado pelo Observatório Europeu sobre Drogas e Toxicodependências (OEDT) há sinais positivos de redução de algumas das conseqüências mais graves do consumo de drogas na Europa. O número de mortes relacionadas ao uso de drogas mostrou declínio em 2004. O consumo de heroína estabilizou em vários países e a epidemia do HIV entre os consumidores de drogas injetáveis também demonstrou diminuição. Ao mesmo tempo houve uma melhora do acesso ao tratamento e cuidados complementares.

Contudo há o risco de algumas destas tendências serem de curta duração, e há grande preocupação quanto às epidemias relacionadas ao consumo de drogas. Além disso não se pode esquecer que o consumo de drogas se mantém em níveis elevados, muitos países reportaram um crescente consumo de cocaína e, em algumas regiões da Europa também houve aumento no número de consumidores de cannabis e ecstasy.

Aumento da procura de tratamento por consumo de cocaína

Nos Países Baixos e na Espanha, a cocaína, depois da heroína, é a droga mais notificada pelos centros de tratamento especializado, respectivamente, mais de um terço (35%) e mais de um quarto (26%) de todos os pedidos de tratamento. Na maioria dos países, ocorrem mais pedidos de tratamento por consumo de cocaína em pó do que de cocaína fumada/crack (embora haja exceções, como por exemplo os Países Baixos onde cerca de dois terços dos pedidos por tratamento se referem ao crack). Aumenta a preocupação quanto ao consumo de crack em algumas cidades da Alemanha, Espanha, França, Países Baixos e Reino Unido.

Segundo estudos realizados nos países da União Européia, 1% a 10% dos jovens europeus entre 15 e 34 anos referiram ter experimentado cocaína nos últimos 12 meses. Os inquéritos mostram que, neste grupo, o consumo de cocaína registrou algum aumento na Dinamarca, Alemanha, Espanha e Reino Unido, tendo ainda sido registrados aumentos localizados na Grécia, Irlanda, Itália e Áustria. Menos de 1% dos adultos (15–64 anos) na UE referiu ter consumido cocaína recentemente, embora Espanha e Reino Unido registrem índices superiores a 2%, tal como nos EUA. Nas zonas urbanas e em subgrupos específicos, os níveis de consumo podem ser muito mais altos: alguns inquéritos realizados em “dance settings” (discotecas, festas) referem prevalências de consumo de cocaína, ao longo da vida, de 40% a 60%.

As mortes atribuídas apenas à cocaína continuam discretas na Europa. Nos Países Baixos, o número de mortes aumentou de 2 em 1994, para 26 em 2001 e, no Reino Unido, o número de registros de óbito contendo “dependência de cocaína” aumentou entre 1993 e 2001 (embora sejam muito menores do que os registros de opiáceos).

Entre 1997 e 2002, o número de apreensões em decorrência de porte de cocaína aumentou em quase todos os países da UE. Em 2002, a cocaína apreendida aumentou em termos de quantidades totais na Alemanha,França e Itália, tendo diminuído na Espanha, Países Baixos e Portugal, o que pode ser indício de uma alteração das “portas de entrada” da droga na Europa.

Sinais de consumo “pesado” de cannabis entre os adolescentes

A cannabis continua sendo a droga ilícita mais consumida em toda a UE, com cerca de um a cada cinco adultos europeus (20%) a referir o uso de pelo menos uma vez, ao longo da vida. As prevalências do consumo de cannabis são geralmente mais altas na população jovem (15–34 anos). Quanto às prevalências ao longo da vida, elas variam numa porcentagem que vai de menos de 15% na Estónia, Portugal e Suécia, até 35% ou mais na Dinamarca, Espanha, França e Reino Unido.

Entre os alunos de 15–16 anos, a porcentagem dos que já experimentaram cannabis é de aproximadamente 10% na Grécia, Malta, Finlândia, Suécia e Noruega e de mais de 30% na República Checa, Espanha, França e Reino Unido.

A maior parte das pessoas que consomem cannabis o fazem ocasionalmente ou por períodos de tempo limitados. No entanto, cerca de 15% dos alunos de 15–16 anos da UE que consumiram cannabis no último ano são consumidores “pesados” desta substância (consumiram em 40 ou mais ocasiões durante o ano). Os indivíduos do sexo masculino são duas vezes mais consumidores “pesados” do que as do sexo feminino. Entre os homens, esta percentagem varia de menos de 1% na Letônia, Lituânia, Malta, Finlândia e Suécia, até entre 5% a 10% na Bélgica, Alemanha, Espanha, França, Irlanda, Eslovênia e Reino Unido. Para as mulheres, esta porcentagem varia entre 0% e 4,6%.

O panorama das tendências do consumo de cannabis é diversificado, apontando para uma estabilização do número de jovens consumidores nos últimos 2–4 anos nos Paises Baixos, na Finlândia, Suécia e Noruega. A cannabis é a droga com maior número de apreensões em todos os países da UE, à exceção da Letônia (onde o da heroína é superior), tendo a maior parte sido registrada no Reino Unido, seguido da Espanha e França. Contudo, nos últimos cinco anos e em termos de quantidades, a Espanha contribuiu com mais da metade da quantidade total de maconha apreendida na UE.

Aumento no consumo de ecstasy

Os estudos indicam que em alguns países, como a República Checa, Alemanha, Irlanda, Países Baixos, Portugal e o Reino Unido, o consumo de ecstasy pode atingir ou mesmo ultrapassar o consumo de anfetaminas como segunda droga mais consumida depois da maconha. Entre 0,5% e 7% da população (15–64 anos) já experimentaram ecstasy, em comparação com 0,5% a 6% par o consumo de anfetaminas (o Reino Unido é a exceção com a prevalência ao longo da vida de anfetaminas em torno de 12%). Dois terços dos países membros da UE referem que entre a população jovem (15–34 anos), o consumo recente de ecstasy é mais comum do que o de anfetaminas. Entre 5% e 13% dos indivíduos do sexo masculino, entre os 15 e os 24 anos de idade da República Checa, Espanha, Irlanda, Letônia, Países Baixos e Reino Unido referem ter consumido ecstasy no último ano. Contudo, no geral, as taxas de consumo de ecstasy e anfetaminas em escolares (alunos de 15–16 anos) parecem mais estáveis em alguns países.

Ao contrário do que se passa na Ásia e nos Estados Unidos, onde o consumo de metanfetaminas constitui um problema cada vez maior, na UE o consumo de metanfetaminas parece restringir se à República Checa, país onde estas são produzidas desde os anos oitenta.

O ecstasy é produzido em vários países da Europa, mas grande parte da produção situa se nos Países Baixos e na Bélgica. Em 2002, as quantidades de ecstasy apreendidas aumentaram em quase todos os países da UE.

As mortes relacionadas ao consumo de ecstasy são raras na maioria dos países da UE.

Diminuição da mortalidade relacionada ao consumo de drogas

O número de mortes relacionadas ao consumo de drogas na UE diminuiu em 6% nos últimos anos. É possível que esta diminuição tenha ocorrido devido à redução do consumo de drogas injetáveis em alguns países e ao aumento do acesso a tratamentos em serviços de prevenção. No entanto, o OEDT diz que o número de mortes relacionadas ao consumo de drogas permanece alto, em termos históricos, esta tendência pode não ser sustentável.

Infecções por HIV diminuem, mas os riscos de alastramento da epidemia continuam altos

A propagação da epidemia de HIV em alguns da UE causa grande preocupação. A Estônia, a Letônia, Rússia e Ucrânia são os países onde ocorre o crescimento desta epidemia. Na Europa Ocidental, a epidemia parece ter estabilizado ou estar em declínio entre os consumidores de droga injetáveis.
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein