Problemas associados ao tabagismo na mulher

Case studies of three pregnant smokers and their use of nicotine replacement therapy.

Hotham ED, Gilbert AL, Atkinson ER.
Midwifery. 2005 Jun 17

Trends in mortality from lung cancer in Mexico, 1980-2000
Tovar-Guzman VJ, Lopez-Antunano FJ, Rodriguez-Salgado N.
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Smoking and weight control behaviors.
Facchini M, Rozensztejn R, Gonzalez C.
Eat Weight Disord. 2005 Mar;10(1):1-7.

Em diversos países, o câncer de pulmão já ultrapassou o câncer da mama como principal causa de morte no sexo feminino. Paralelamente, diversos estudos demonstram que as mulheres constituem um grupo de risco particular para o uso do tabaco. As que fumam, além de ficarem susceptíveis a todas as conseqüências negativas conhecidas nos homens, sofrem as conseqüências específicas de seu sexo.

Por exemplo, as mulheres que fumam apresentam maior probabilidade de serem vítimas de câncer de útero, menopausa precoce ou infertilidade. O ato de fumar na gravidez envolve também grandes riscos para o feto, além do que, após seu nascimento, o tabaco no ambiente doméstico continua expondo a criança aos perigos do fumo passivo.

Em muitos países, existe ainda a idéia de que o tabagismo é essencialmente um problema masculino. Contudo, especialmente nos países desenvolvidos, o uso do tabaco está diminuindo na população masculina o que incitou a indústria do tabaco a concentrar cada vez mais os seus esforços de marketing em novos tipos de usuários, especificamente os jovens e mulheres.

Devido às novas tendências de consumo, torna-se necessário colocar o uso crescente do tabaco entre mulheres como um problema de saúde pública.

São várias as implicações geradas pelo tabagismo no organismo da mulher. Em todas as fases da sua vida, a mulher tabagista pode sofrer diferentes conseqüências do consumo de nicotina.

1. Implicações na fase reprodutiva

A taxa de fertilidade revela-se menor nas mulheres tabagistas. Este efeito foi verificado a partir da concentração de nicotina e de cotidina no fluido folicular ovariano. A ausência ou presença dessas substâncias afetou em 75% e 57% respectivamente a taxa de fertilização.

Mais preocupante é ainda o uso de anticoncepcionais hormonais em mulheres tabagistas, pois estes potencializam os efeitos trombogênicos (formadores de trombo). O risco de doença coronariana chega a ser 39 vezes maior e o risco de acidente vascular cerebral 22 vezes superior em tabagistas que usam anticoncepcionais, quando comparadas às mulheres não tabagistas. Este fato reforça a importância da consulta periódica de mulheres tabagistas, para um completo acompanhamento e aconselhamento.

Entre as mulheres tabagistas também é significativamente maior a ocorrência de menopausa precoce, antecipando o risco do aparecimento de doenças cardiovasculares. Um estudo realizado em 32 mil mulheres, com idades compreendidas entre os 43 e os 50 anos, verificou um aumento da prevalência da menopausa entre as tabagistas.

2. Implicações na gravidez

Durante a gravidez, o tabagismo acarreta diversos malefícios para a mãe e para o feto. A nicotina reduz o fluxo placentário levando ao envelhecimento precoce da placenta e favorecendo o nascimento prematuro, abortamento, baixo crescimento do feto, neonato com baixo peso e, conseqüentemente, um maior perigo de morte do feto. É preciso salientar que o hábito de fumar um a quatro cigarros já é suficiente para reduzir o fluxo placentário e desencadear um ou mais destes problemas.

Num estudo realizado no Missouri (EUA) onde foram analisados 360 mil registros de nascimento entre 1979 e 1983 verificou-se que mulheres que fumam menos e mais de 20 cigarros por dia o risco de morte fetal ou neonatal atinge respectivamente 25% e 50%.

A gestante tabagista apresenta mais complicações durante o parto e o dobro da probabilidade de ter um bebê de baixo peso do que uma gestante não tabagista. Estas conseqüências derivam dos efeitos do monóxido de carbono e da nicotina sobre o feto.

Um único cigarro fumado por uma gestante é capaz de acelerar, em poucos minutos, os batimentos cardíacos do feto. Isto ocorre devido ao efeito da nicotina sobre o seu aparelho cardiovascular fetal. Assim, é fácil imaginar a extensão dos danos causados ao feto pelo uso regular de tabaco.

Quando a mãe fuma durante a amamentação, a nicotina passa também pelo leite e é absorvida pela criança. Mas os riscos para a gravidez, o parto e a criança não decorrem somente do hábito de fumar da mãe. Quando a gestante é obrigada a viver em ambientes que contém fumaça de cigarro, esta também absorve as substâncias tóxicas desta substancia e passa para a corrente sanguínea fetal.

No bebê

Na fase do aleitamento, a criança recebe nicotina através do leite materno, existindo a possibilidade de intoxicações por nicotina (agitação, vômitos, diarréia e taquicardia) em filhos de mães tabagistas de 20 ou mais cigarros por dia. Em recém-nascidos, filhos de mães que fumam de 40 a 60 cigarros por dia, observaram-se complicações mais graves como palidez, cianose, taquicardia e dificuldade respiratória após a amamentação.

Diversos estudos revelam que crianças com sete anos de idade, nascidas de mães que fumaram 10 ou mais cigarros por dia durante a gestação, apresentam atrasos no aprendizado quando comparadas a outras crianças. Estes atrasos são de aproximadamente três meses nas habilidades gerais, de quatro meses na leitura e de cinco meses na matemática. Há também uma maior prevalência de problemas respiratórios (bronquite, pneumonia, bronquiolite) em crianças de zero a um ano de idade que residem com tabagistas, em relação às famílias que não fumam. Observa-se que, quanto maior o número de tabagistas no domicílio, maior a probabilidade de infecções respiratórias, chegando a 50% nas crianças que vivem com mais de dois fumadores em casa.

3. Implicações na menopausa

A incidência de osteoporose é maior principalmente em mulheres tabagistas na fase da menopausa. Diversos estudos em que foram realizadas análises da densidade óssea de mulheres tabagistas observaram-se maiores perdas ósseas neste grupo. A interrupção do hábito de fumar antes da menopausa possibilita uma redução na ordem dos 25% na ocorrência de osteoporose.

4. Implicações cardiovasculares

O tabagismo é o principal fator de risco para doença arterial coronariana em mulheres. Um estudo com 11843 homens e mulheres, na faixa etária dos 25 a 52 anos, revelou que mulheres que fumavam mais de 20 cigarros por dia tinham seis vezes mais chance de sofrer um enfarte agudo do miocárdio, quando comparadas a não tabagistas. Nos homens tabagistas o risco foi três vezes maior. É interessante notar que não existe uma diminuição do risco de enfarte do miocárdio em mulheres que fumam cigarros com menores teores de alcatrão e nicotina.

Um estudo sobre a saúde das enfermeiras americanas mostrou um risco 2,58 vezes maior de acidentes vasculares cerebrais nas tabagistas. Este risco incluiu o acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, e foi tanto maior quanto maior o número de cigarros fumados. O tabagismo nas mulheres constituiu também um fator de risco para a arteriosclerose dos membros inferiores, diminuindo a tolerância a caminhadas.

5. Implicações na pele

A pele das mulheres tabagistas apresenta-se normalmente amarelada e sem brilho, com pequenas rugas à volta da região perioral (perpendicularmente aos lábios), que, embora não tenham a profundidade das rugas de velhice, começam a aparecer próximo aos 30 anos.

As fibras elásticas presentes na pele das tabagistas apresentam-se em menor número e tamanho, o que inibe o nível de oxigenação da pele. Na medida em que o tabaco é um potente vasoconstritor, este não permite o fluxo sanguíneo adequado para os vasos e leva a um envelhecimento prematuro da pele. Paralelamente, o tabaco inibe a produção de fibroblastos, responsáveis pelo colágeno e elastina (substâncias que dão textura e elasticidade à pele e impedem a sua flacidez).

Obstáculos à interrupção do tabagismo na mulher

A interrupção do tabagismo está associada à redução de 50% a 70% do risco em doenças cardiovasculares em mulheres. Após dois a três anos de abandono do tabagismo, as ex-fumantes apresentam um risco cardiovascular igual às mulheres que nunca fumaram (20%).

Apesar do grande benefício de parar de fumar, as mulheres apresentam mais dificuldades em parar de fumar do que os homens. É comum muitas interromperem o tabagismo durante a gestação, motivadas por preocupações com o feto ou por aversão ao cigarro proporcionada pelas alterações hormonais da gravidez. No entanto, a taxa de recaída após a concepção é muito elevada.

Fora do período da gravidez, a preocupação com um possível ganho de peso é muitas vezes responsável por recaídas ou torna-se um importante fator de desmotivação. Parar de fumar envolve um ganho de peso em ambos os sexos. Um estudo que acompanhou 5887 homens e mulheres tabagistas com idades entre os 35 e os 60 anos, residentes no EUA e Canadá (Lung Health Study), no período de 1986 a 1994, observou, nas mulheres que pararam de fumar uma média de ganho de peso de 5,2 kg ± 5 Kg no primeiro ano, e 3,4 kg a 5,5 kg até o quinto ano.

Entre os homens, o ganho de peso foi 4,9 kg no primeiro ano e 2,6 a 5,8 quilos até o quinto ano. Com a utilização de produtos farmacológicos de abstinência à nicotina o ganho de peso foi menor.
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein 24/06/2005