Orientação sexual, uso de drogas e percepção de risco entre homens HIV positivos – SP

A transmissão heterossexual do HIV aumentou no Brasil de 16,4% entre 1983-90 para 57,8% em 2001. Entre homens adultos, os casos de transmissão heterossexual aumentaram de 10,5% entre 1983-90 para 38,3% em 2001. Nesse mesmo período, a transmissão entre bissexuais, que representou 18,2%, diminuiu para 13,1%, e a transmissão pelo uso injetável de drogas diminuiu também de 17,3% para 11,7%.

Mesmo com esses dados, poucas pesquisas de prevenção em HIV/AIDS tiveram seu foco no comportamento sexual de homens que fazem sexo com mulheres. No Brasil, a maioria de estudos de risco heterossexual focalizou-se nas mulheres. Alguns estudos entre homens, mostraram que eles mantêm comportamento sexual de risco, mesmo após saberem que são soropositivos (Hiv+).

Entretanto, a transmissão do HIV ocorre geralmente antes que o indivíduo transmissor saiba que tem o vírus. Por isso, a percepção do risco e o comportamento de pessoas HIV+, antes que saibam seu diagnóstico, são de grande interesse.

Estudo publicado no International Journal of STD & AIDS, examinou 250 homens HIV+, que mantinham relações sexuais com mulheres, em São Paulo. Todos os participantes responderam a um questionário a respeito das características demográficas, do comportamento sexual, do uso de drogas, e da percepção do risco antes de saber de seu status de HIV+, isto é, se acreditavam que poderiam ser soropositivos quando se submeteram a fazer o teste.

Conforme os resultados da pesquisa, 25% dos entrevistados acreditou ter sido infectado pela prática de sexo desprotegido, e 42% relatou ter feito o teste de HIV somente quando se tornaram doentes. A análise de orientação sexual mostrou que 62% eram heterossexuais e 38% bissexuais (definidos como tendo feito sexo com um outro homem em algum momento de sua vida). O uso freqüente de preservativos com mulheres (antes do diagnóstico de HIV+), foi relatado por 23% de heterossexuais e por 35% de bissexuais. A respeito do uso de drogas na vida, 58% tinha usado um ou mais tipos de drogas. O uso recente de drogas foi incomum. O uso de cocaína injetada no mês que precedeu a entrevista foi relatado por somente um entrevistado. A análise sobre o uso de drogas e percepção de risco para HIV, mostrou diferença significativa entre aqueles que já tinham usado drogas, e os que nunca haviam usado nenhum tipo de substância psicoativa. Não houve nenhuma diferença significativa, entretanto, entre aqueles que tinham usado drogas injetáveis (cocaína), e aqueles que tinham usado drogas, mas não injetáveis. Não houve também nenhuma diferença significativa entre heterossexuais e bissexuais a respeito do uso de drogas. Quanto ao uso de preservativos, não houve diferenças significativas entre aqueles que já haviam ou não usado drogas.

Estes resultados mostram que os homens que mantêm relações sexuais com mulheres não usam regularmente preservativos, nem se percebem em risco antes de se saberem soropositivos. Segundo a pesquisa, isto tem implicações epidemiológicas importantes, porque a transmissão do HIV a outro ocorre frequentemente antes que a pessoa saiba que está com o vírus. Embora os níveis de conhecimento sobre o HIV e a AIDS sejam geralmente bons no Brasil, os programas de prevenção têm aparentemente ainda um grande caminho a percorrer, para criar um nível apropriado de percepção de risco entre homens, e em incentivar que façam o teste de HIV mais adiantadamente. Os esforços de prevenção para heterossexuais só serão eficazes se os homens e as mulheres mudarem seu comportamento.

Título: Sexual orientation, use of drugs and risk perception among HIV-positive men in São Paulo, Brazil.

Fonte: International Journal of STD & AIDS, Vol. 16, Janeiro de 2005, 56–60.
Autor: E M V Filipe; E Batistella; A Pine; N J S Santos; V Paiva; A Segurado; N Hearst.
Fonte: OBID