Cientistas descobrem gene associado à resistência ao álcool em moscas da fruta

Cientistas descobriram um gene que torna as moscas da fruta mais resistentes ao efeito do álcool e deram-lhe o nome de ressaca. De acordo com a equipe da Universidade da Califórnia em São Francisco, responsável pelo estudo, o mesmo gene foi associado ao controle do estresse e pode ajudar a entender por que alguns humanos, quando passam situações difíceis, tendem a beber mais.

A grande tolerância ao álcool, a habilidade de resistir aos efeitos da bebida após muitas doses, é um dos fatores que podem levar à dependência. É sabido que tanto a tolerância quanto a tendência para se tornar alcoolista estão parcialmente associadas à hereditariedade. Mas apenas alguns genes responsáveis pelo mal foram identificados. Devido à dificuldade de realizar estudos genéticos em humanos, os cientistas preferiram trabalhar com a mosca da fruta (Drosophila melanogaster). Os resultados foram publicados na edição desta quarta-feira,10/08, da revista “Nature”.

Os pesquisadores Ulrike Heberlein e Henrike Scholz, da Universidade de Würzburg (Alemanha) expuseram as moscas ao vapor de etanol. Os insetos intoxicados apresentam um comportamento similar aos humanos bêbados, como falta de coordenação e controle de postura e após alguns minutos caíram no sono. Segundo os cientistas, as moscas levaram 20 minutos para se recuperarem dos efeitos da exposição.
Quatro horas depois, as mesmas moscas foram expostas ao álcool. Os cientistas notaram que os insetos já haviam desenvolvido uma resistência e precisavam de aplicações mais fortes. O tempo para se recuperarem dos efeitos também aumento para 28 minutos.
Já as moscas da fruta que apresentava o gene ressaca defeituoso levavam ainda 20 minutos para se recuperar da exposição, sem desenvolver tolerância ao álcool.

Os pesquisadores realizaram o experimento com dez mil moscas, cujos genomas haviam sido danificados em lugares aleatórios. Em seguida, investigaram como o gene estava envolvido em resposta ao estresse, uma vez que, em humanos, esse tipo de ligação parece existir.

Uma resposta de estresse foi desencadeada em um novo grupo de moscas da fruta, com genes de ressaca ativos. Os cientistas aqueceram os insetos a 37º Celsius por 30 minutos. Quatro horas depois, as moscas foram expostas ao álcool. Eles mostraram uma maior tolerância: levaram 29,5 minutos para se recuperarem da embriaguez.

O mesmo resultado não foi observado entre moscas com a versão defeituosa do gene. “Há um crescente reconhecimento de que o estresse, em níveis celulares e sistêmicos, contribui para comportamentos de dependência de drogas nos mamíferos. Nossos estudos sugerem que esse papel pode ter sido conservado através da evolução”, afirmaram os pesquisadores.Eles afirmaram ainda que é possível que os humanos tenham um gene equivalente ao encontrado nas moscas e que possam apresentar maior risco de tornarem-se dependentes de álcool.
Autor: Jornal O Globo
Fonte: OBID