Dependência química entre médicos

Os médicos passam por situações facilitadoras para dependência de drogas. Esses profissionais estão vulneráveis a alguns fatores de risco para uso de substâncias psicotrópicas, tais como: acesso fácil aos medicamentos, perda do tabu em relação a injeções, história familiar de dependência, problemas emocionais, estresse no trabalho e em casa, busca de emoções fortes, auto-administração no tratamento para dor e para o humor, fadiga crônica, onipotência e padrão de prescrição exagerada, etc. Além disso, os médicos trabalham de forma independente, com postura geralmente controladora, falsa sensação de que “podem cuidar de si mesmos, que sabem o que estão fazendo”, e a negação retarda a busca de ajuda e tratamento.

Médicos apresentam taxas similares de uso nocivo e dependência de substâncias em relação à população geral, variando entre 8% e 14%. Em relação ao álcool, alguns estudos relataram taxas até mesmo superiores. A freqüência de uso nocivo e dependência de opióides e benzodiazepínicos é aproximadamente cinco vezes maior que na população geral. Há dados sugestivos de que o problema é subestimado.

No Brasil, existem alguns trabalhos analisando o uso de álcool e drogas entre estudantes de medicina, mas não existiam trabalhos realizados na população de médicos. Estudo publicado na Revista da Associação Médica Brasileira traçou o perfil clínico e demográfico de uma amostra de médicos em tratamento por dependência química, e avaliou comorbidades (ocorrência da dependência de drogas e outro transtorno mental) psiquiátricas e conseqüências associadas ao consumo.

Para a pesquisa, foram coletados dados de 198 médicos em tratamento ambulatorial por uso nocivo e dependência química, através de questionário elaborado pelos próprios autores do estudo.

A maioria de indivíduos foi do sexo masculino, 87,8%, casados, 60,1%, e com idade média de 39,4 anos. Sessenta e seis por cento já tinham sido internados por causa do uso de álcool e/ou drogas. Setenta e nove por cento possuía residência médica e as especialidades mais envolvidas foram: clínica médica, anestesiologia e cirurgia. Quanto às substâncias consumidas, o mais freqüente foi uso associado de álcool e drogas, 36,8%, seguido por uso isolado de álcool, 34,3% e uso isolado de drogas, 28,3%.

Observou-se o intervalo de 3,7 anos em média entre a identificação do uso problemático de substâncias e a procura de tratamento. Quanto à busca por tratamento, 30,3% o fizeram voluntariamente. Quanto aos problemas sociais e legais observou-se: desemprego no ano anterior em quase 1/3 da amostra; problemas no casamento ou separação (52%), envolvimento em acidentes automobilísticos, 42%, problemas jurídicos, 19%, problemas profissionais, 84,8%, e 8,5% tiveram problemas junto aos Conselhos Regionais de Medicina.

O estudo concluiu que o médico dependente teme o estigma, a falta de confidencialidade, a perda da reputação e o desemprego. A identificação da dependência é feita de forma abrupta e tardia. Medidas educativas e assistenciais devem ser tomadas no sentido de reduzir a automedicação, dado que este fator pode atrasar o diagnóstico e o tratamento. Os autores sugerem ainda a implantação de serviços específicos para atendimento dos médicos dependentes químicos, o que auxiliaria na triagem e detecção de casos, aumentando a adesão ao tratamento, protegendo o médico e o público em geral. A inexistência de serviços específicos pode deixar os médicos desamparados e os colegas sem argumentação para abordarem o dependente. Os autores recomendam medidas assistenciais e preventivas para o problema.

Título: Perfil clínico e demográfico de médicos com dependência química.
Fonte: Revista da Associação Médica Brasileira, vol.51 no.3, maio/jun. de 2005, 139-143.
Autor: Alves, Hamer Nastasy P.; Surjan, Juliana Canada; Nogueira-Martins, Luiz Antonio
Fonte: OBID