Transtorno bipolar do humor e uso indevido de substâncias psicoativas

Os transtornos relacionados ao consumo de substâncias psicoativas estão entre as patologias psiquiátricas mais comuns. Já o transtorno bipolar do humor acomete cerca de 1% da população geral brasileira. Mesmo sendo pouco freqüente, seu impacto sobre a vida dos indivíduos e seus grupos de convívio se traduz em um sério problema de saúde pública. O transtorno bipolar e o uso indevido de substâncias psicoativas são doenças com alto potencial de limitação de autonomia, tornando-se ainda mais sérias quando associadas.

O transtorno bipolar é uma das patologias mais associadas ao uso indevido de substâncias psicoativas. Os índices com o uso indevido de álcool atingem de 60% a 85% desta população ao longo da vida, enquanto o consumo de outras substâncias psicoativas (excluído o tabaco), de 20% a 45%. Já entre os pacientes com problemas relacionados ao uso de álcool e drogas, um quarto apresenta algum transtorno do humor associado.

Artigo publicado na Revista de Psiquiatria Clínica apresentou as evidências científicas disponíveis acerca da epidemiologia, causas, evolução clínica, diagnóstico e tratamento farmacoterápico e psicossocial do transtorno bipolar do humor e o uso indevido de substâncias psicoativas.

Quanto às causas, reconhece-se que as relações entre o consumo de álcool e drogas e os transtornos afetivos são complexas, heterogêneas, bidirecionais e variáveis ao longo do tempo. Quanto à evolução clínica, o transtorno bipolar é considerado fator de risco para o uso indevido de substâncias; e o uso de álcool e drogas, um agente complicador e fator de piora na evolução do transtorno bipolar. Quanto ao diagnóstico, a dificuldade está na atribuição causal, uma vez que as relações de causa e efeito entre o transtorno bipolar e o uso indevido de substâncias ainda não estão totalmente esclarecidas e podem não ser as mesmas para todos os pacientes.

Quanto ao tratamento, o indivíduo com transtorno bipolar do humor, que faz uso indevido de substâncias psicoativas, requer acompanhamento multidisciplinar especializado, de longa duração, preferencialmente em ambiente ambulatorial e supervisionado por uma única equipe profissional. A primeira meta terapêutica deve ser a remissão dos sintomas afetivos agudos e a obtenção de uma abstinência estável, e uma preocupação voltada ao suporte social não deve ser esquecida. Quanto ao aspecto farmacológico, há pouco conhecimento acerca de estratégias medicamentosas específicas para essa população. A medicação ideal para o tratamento do transtorno bipolar do humor e uso indevido de substâncias psicoativas deveria: remitir completamente as polarizações de humor (mania e depressão), aliviar os sintomas de abstinência e fissura, prevenir recaídas, ter baixo potencial de abuso/dependência; ter via de administração e posologia de fácil manejo e alta tolerabilidade pelo paciente. Os fármacos que melhor se aproximam desses critérios são: os estabilizadores do humor, os antipsicóticos, os antidepressivos e os benzodiazepínicos.

Os autores do artigo chegaram à conclusão de que há uma série de lacunas acerca do entendimento do transtorno bipolar do humor associado ao uso indevido de substâncias psicoativas. Por outro lado, há uma grande variedade de estratégias medicamentosas e psicossociais em desenvolvimento, que ainda necessitam de estudos mais elaborados e por tempo mais prolongado. Para eles, a criação de programas estruturados de atenção, com participação da família e supervisionados por equipe multidisciplinar parece ser o caminho mais promissor.

Título: Transtorno bipolar do humor e uso indevido de substâncias psicoativas.

Fonte: Revista de Psiquiatria Clínica, vol.32 supl. 1, 2005, 78-88.
Autor: Ribeiro, M; Laranjeira, R; Cividanes, G.
Fonte: OBID