Como vencer a dependência da nicotina

*Opinião

Em algum momento da vida as pessoas tomam consciência da sua finitude. A angústia de saber que se vai morrer ou que se pode passar os últimos anos da vida longe do convívio de filhos e netos, ou dependentes de outras pessoas é a principal motivação para largar o cigarro. Mas parar de fumar representa abandonar um modelo de existência cujo equilíbrio emocional depende de uma droga. Sem a droga o indivíduo entra num período voluntário de luto. Mulheres, principalmente, estabelecem um forte relacionamento afetivo com o cigarro. É comum ouvir frases como “É o meu único amigo! O que farei na solidão?”.

Alguns acreditam que este estado de instabilidade, fissura, perda da capacidade de concentração, melancolia é para sempre. Mas não é! Ele representa a crise de abstinência que dura no máximo seis semanas. O alívio da solidão pela nicotina faz com que o fumante não precise de companhia. O alívio do estresse faz com que não busque soluções eficazes para o que motiva o nervoso. O fumante sente pânico ao pensar em enfrentar este período. Mas não há cérebro que não volte ao normal após a abstinência.

Enfrentar este período é uma experiência especial. A pessoa enfrenta um desafio que parece aterrorizante e que vai requerer força, recursos emocionais, intelectuais, espirituais e financeiros. Parar de fumar de modo planejado e consciente é uma oportunidade de crescimento, de tomar posse de riquezas interiores latentes, de aumentar a auto-estima, além de aumentar a valorização social e familiar. Sem falar no ganho de saúde.
Há menos de 20 anos a sociedade passou a receber informações de que tabagismo é por si só uma doença e que a nicotina é droga e leva à dependência. E o entendimento de que a dependência por uma droga leva a uma doença cerebral permite que sejam formuladas estratégias de tratamento eficazes. Hoje já se conhece genes relacionados com o aumento de risco de desenvolver a dependência. Alguns privam o cérebro de dopamina, e a nicotina funcionaria como um remédio para estes indivíduos. De modo inconsciente e intuitivo o indivíduo aprende a modular emoções com o efeito da nicotina, procurando fumar após determinados estímulos. Outros metabolizam a nicotina rápido, fazendo com que o efeito desapareça em instantes, obrigando o fumante a fumar a cada 15 minutos.

A associação de medicamentos e apoio psicológico triplica a chance de sucesso em relação àqueles que tentam parar sem orientação profissional. O combate ao tabagismo requer que a sociedade mude conceitos sobre o cigarro com ações educativas que inibam sua iniciação, que ajude os fumantes a terem tratamentos eficazes, seja pelo SUS, seja por meio dos convênios médicos que ainda não se sensibilizaram o suficiente sobre esta questão.

*Ciro Kirchenchtejn, Pneumologista, Coordenador do HelpFumo – Centro de Tratamento para Dependentes de Nicotina do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo
Fonte:IstoÉ Gente