Êxtase atrai universitários para o tráfico

O aumento do consumo de drogas sintéticas nos últimos três anos constatado pela polícia revela também que há um novo tipo de traficante: jovem, com nível superior de escolaridade e pertencente à classe média.

Um levantamento da Polícia Federal mostra que de 75% a 80% dos traficantes presos são universitários; formados ou ainda estudantes. A droga mais consumida é o êxtase.

O uso acontece principalmente em danceterias e em festas de música eletrônica, as raves, que costumam durar mais de 24 horas.

De acordo com o Delegado Ronaldo Urbano, Coordenador-geral de repressão a entorpecentes da Polícia Federal, usuários e traficantes são diretamente envolvidos, pois convivem no mesmo ambiente e, em geral, fazem parte do mesmo grupo de amigos.

É diferente do que ocorre na venda de cocaína, quando, na maior parte das vezes, o usuário vai à boca de fumo (localizada em favelas vigiadas por soldados do tráfico) para comprar a droga, sem querer saber quem é o traficante e vice-versa.

“Esse é um dos pontos de diferenciação em relação à cocaína, pois não existe uma “boca de êxtase”. Como há elos de relacionamento mais fortes entre usuários e traficantes (no caso do êxtase), a venda ocorre nas casas das pessoas, em seus lugares de trabalho, festas, ou mesmo dentro das universidades”, disse o Delegado.

O modo de atuação dos traficantes universitários também é diferente do realizado pelo narcotraficante “tradicional”, segundo Urbano. A polícia verificou que entre eles não há disputa por pontos de venda entre quadrilhas.

“Em geral, atendem apenas ao seu grupo de amigos. Não costumam agir com violência ou andar armados, e nem mesmo se sentem traficantes”, avaliou Urbano.

Além do êxtase, usuários de drogas sintéticas também estão passando a consumir a “cápsula do vento”, que tem efeito alucinógeno, similar ao êxtase e dura até 12 horas. É também comum o uso de LSD – ácido lisérgico.

Rota

Segundo a PF, o traficante de êxtase vai sempre comprar a droga na Europa, principalmente na Holanda. Em geral, volta com no máximo um quilo, o que equivale a 6.000 comprimidos.

“Quando eles retornam ao Brasil, passam os comprimidos para os amigos, que farão o repasse para o consumidor final”, contou Urbano. Em média, o preço de uma pílula varia de R$ 40 a R$ 80.

Recentemente, a PF detectou que “mulas” (pessoas contratadas para transportar drogas) também estão sendo recrutadas para o tráfico de êxtase. No entanto, também nesse caso têm nível socio econômico superior em comparação com as “mulas” que transportam cocaína, por exemplo.

Em 2002, a PF apreendeu 15 mil comprimidos de êxtase, no ano seguinte foram 51 mil. Em 2004, o número subiu para 76 mil. Neste ano, 60 mil comprimidos foram apreendidos.

Somente em São Paulo, a polícia prendeu 180 universitários por tráfico e associação para o tráfico de drogas (sintéticas), de janeiro a julho deste ano, um jovem preso por dia. Outros 70 acabaram detidos como usuários. No mesmo período, 18 mil comprimidos de êxtase foram apreendidos.

Prevenção

No mês passado, um estudante da PUC-SP foi detido pela polícia dentro do campus central da universidade, localizado em Perdizes (zona oeste). Ele foi acusado de vender skank (maconha modificada geneticamente, com maior teor do princípio ativo, o THC).

O aluno foi liberado já no dia seguinte. Mesmo assim, o fato despertou o debate sobre o uso de drogas pelos estudantes da instituição. O Conselho Comunitário vem se reunindo para discutir a melhor forma de se abordar o assunto na universidade.
Fonte:Folha online