Tabagismo no domicílio e baixa estatura em menores de cinco anos

Existe forte relação entre os fatores sociais, econômicos, biológicos e a estatura com que as crianças nascem. Dentre os fatores do meio ambiente mais estudados, estão aqueles ligados às condições nutricionais, os quais, por sua vez, sofrem influência das variáveis sócio-econômicas. Uma variável relacionada à condição sócio-econômica das famílias, e que geralmente não é incluída nos estudos de avaliação nutricional, é o tabagismo dos pais e/ou dos moradores do domicílio. O tabagismo durante a gestação é um dos responsáveis pelo menor peso e estatura ao nascer. No entanto, a exposição à fumaça do tabaco, no período pós-natal, não tem sido explorada nos estudos sobre desenvolvimento físico.

Sabendo que a prevalência do tabagismo é alta entre pessoas de nível sócio-econômico mais baixo, e que a estatura de crianças está também associada com variáveis sócio-econômicas, estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública investigou o efeito das variáveis sócio-econômicas e da exposição à fumaça do tabaco sobre o crescimento.

Para a pesquisa, foram medidas e pesadas 2037 crianças menores de cinco anos atendidas para vacinação nos postos de saúde da cidade de Cuiabá, Mato Grosso, no período compreendido entre agosto de 1999 e janeiro de 2000. Os pais responderam a um questionário contendo questões relacionadas ao nascimento das crianças, à exposição ao tabagismo passivo no domicílio e às características sócio-demográficas das famílias.

Do total de crianças estudadas, 37,7% eram fumantes passivas, ou seja, moravam em domicílios com pelo menos um fumante. A prevalência de crianças com baixa estatura foi de 4,3%, sendo maior para os filhos de mães fumantes do que de mães não fumantes (7,4% versus 3,8%). A média do peso e do comprimento ao nascer foi menor para as crianças cujas mães eram fumantes do que para as crianças cujas mães não eram fumantes. Foram observadas crianças de menor estatura nos níveis sócio-econômicos mais baixos e com menor renda familiar, quando o pai não morava no domicílio, quando os pais tinham menor escolaridade e quando a criança era mais nova. Filhos de pais fumantes, que fumavam em qualquer lugar da casa ou na presença dos filhos, tendiam a ser mais baixos do que os demais. Foi realizada também análise com o objetivo de verificar se o tabagismo dos pais poderia ser considerado fator de risco para a baixa estatura, mesmo após ajuste para variáveis sócio-econômicas, consideradas como variáveis de confusão para o tabagismo, e verificou-se que o tabagismo dos pais exerceu efeito próprio sobre a estatura das crianças.

A pesquisa concluiu que pela importância do tabagismo como um dos fatores ambientais que interferem no crescimento, sugere-se que o mesmo seja incluído nos estudos de avaliação nutricional e antropométrica, por ser uma variável que pode, biologicamente, interferir no crescimento da criança e também porque medidas de controle precisam ser utilizadas e implementadas para reduzir sua prevalência na população, contribuindo para estilos de vida mais saudáveis para as crianças.

Título: Tabagismo no domicílio e baixa estatura em menores de cinco anos.
Fonte: Cadernos de Saúde Pública, vol.21 no. 5, set./out. 2005, 1540-1549.
Autor: Gonçalves-Silva, RMV, Valente, JG, Lemos-Santos, MGF