Pesquisa do Cebrid mostra que consumo de drogas aumentou entre meninas de Curitiba

A Psicóloga Cleuza Canan, Coordenadora Estadual do programa Antidrogas do Estado do Paraná, adotou como livro de cabeceira uma pesquisa de campo. Logo que o último levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas e Psicotrópicos – Cebrid chegou a suas mãos, Cleuza percebeu que existia ali mais do que um levantamento de dados que poderia preocupar pais e professores.

Em paralelo às estatísticas relacionadas às drogas, notou que havia outras, mais discretas, pedindo campanhas de prevenção. Uma dessas informações de porcentagem baixa, mas assustadora, é a de que as meninas estão cada vez mais propensas ao consumo do álcool.

Mesmo que a pesquisa, realizada ano passado em escolas públicas, com 48.155 estudantes a partir dos 10 anos de idade deixe poucas pistas sobre o assunto, o teste das ruas não deixa mentir. Lojas de conveniência e bares na imediação das escolas costumam burlar a vigilância e ter entre seus fregueses a moçada do uniforme, presilha no cabelo e mochila cheia de penduricalhos.

Pesquisa do mesmo Cebrid de 2001, aponta que 5,2% de adolescentes brasileiros são dependentes de bebida alcoólica. É de consenso que os primeiros tragos venham por volta dos 12 anos, idade mais adequada a soltar pipa e a pular corda do que a tomar pileques. Os efeitos dos primeiros goles são instantâneos e não se trata apenas de pernas trançadas ou euforia momentânea. Tanto quanto as drogas, o álcool atrasa o boletim escolar e é meio caminho andado para a defasagem e, antes mesmo das provas finais, o abandono dos estudos. “Como pesquisadora, me interessa saber como a sociedade olha o adolescente que bebe, em especial a mulher. Eu me pergunto por que há cada vez mais permissão para o consumo precoce de bebida. Entre 10 a 12 anos, quase 45% dos entrevistados da pesquisa já usaram álcool. É alarmante”, diz Cleuza Canan.

A etapa curitibana da pesquisa do Cebrid entrevistou 1.823 estudantes. Desses, quase 70% admitiram ter bebido algum dia na vida. Pode ter sido no último Natal ou ano-novo. Seria inofensivo, não fosse a revelação de que 67% beberam no último ano e que mais de 70% dos entrevistados do levantamento estão cursando ciclo fundamental. Ou seja, alguns adolescentes ainda em idade escolar fazem uso indevido do álcool.

Na parte da pesquisa do Cebrid feita em Curitiba, elas superam em quase 3% os meninos no uso de entorpecentes. Ficou 23% contra 20,7%. Idem na bebida. No sexo feminino, o consumo de álcool é de 71,3% na capital paranaense. Entre os garotos esse número é 67,7%, superando a média nacional, que é de 66,3% para ambos os sexos. “Os meninos ainda bebem mais e com mais freqüência”, considera a Psicóloga. “Mas as meninas estão subindo na escala do consumo.

A reportagem abordou cinco adolescentes, entre 13 e 14 anos, estudantes de uma escola pública, para sondar “como é lá em casa?”. Todas afirmaram que, aos domingos, podem beber no copo do pai ou da mãe. Nenhuma disse ter ficado embriagada até hoje. E todas já foram advertidas a não aceitar bebida alcoólica quando vão a festas com os colegas.

Em coro, o quinteto diz conhecer meninas da mesma idade que bebem e fumam. E garantem não ter recebido informações sobre os malefícios da bebida. Quatro das entrevistadas têm algum familiar alcoólatra e duas delas guardam histórias trágicas de parentes viciados. “É uma desgraça. Se for para me casar com um homem que bebe, prefiro ser freira”, brinca A.H.O, 13 anos. Para Cleuza Canan, o descuido dos pais com as filhas é cultural, contra todas as evidências. É geralmente sobre os guris que recai o temor do envolvimento com drogas e com álcool. “Os meninos são tradicionalmente mais livres para fazer escolhas. Em contrapartida, são mais monitorados. Ainda há o mito da menina comportada, menos sujeita a certos perigos. Se ele bebe, é auto-afirmação. Quando são elas, é sem-vergonhice. A abordagem, então, passa para o campo da moralidade”, considera. Quando bebem, elas ficam estigmatizadas e sujeitas a ultrapassagens masculinas, ao estupro, gravidez indesejada e à dependência química.
Fonte: Jornal Gazeta do Povo