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Fatores de risco e de proteção para o uso de drogas na adolescência

A adolescência constitui um período crucial no ciclo vital para o início do uso de drogas, seja como mera experimentação, ou como consumo ocasional, indevido ou abusivo. Fatores como, relações familiares saudáveis desde o nascimento da criança, servem como proteção para toda a vida e, de forma muito particular, para o adolescente.

Artigo publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva discutiu a prevenção ao uso indevido de drogas por adolescentes. Foram analisados os fatores de risco e os fatores de proteção, conceitos que servem de base para o diálogo com os diferentes contextos sociais como a família, os amigos, a escola, a comunidade e a mídia. O estudo privilegiou a discussão da prevenção, lembrando que a utilização das drogas lícitas e ilícitas permeia a cultura da adolescência à velhice e, no caso do Brasil, notadamente por meio do consumo de álcool, tabaco e maconha. Buscou-se, portanto, realizar uma discussão do contexto familiar e outros ambientes importantes para a prevenção do uso indevido de drogas, como grupo de amigos, escola, comunidade e a mídia.

A elaboração do artigo foi precedida de pesquisas em bases de dados da Internet, e de outros textos requisitados diretamente aos autores, entre os anos de 1995 e 2003, a partir das palavras-chave: adolescência, fatores de risco, fatores de proteção, uso de drogas e prevenção. 67 textos de referência foram analisados, comparados e avaliados na íntegra, dentro do estudo. O foco da análise se deteve nas relações intrafamiliares e interpessoais, contextualizadas socioculturalmente.

Os resultados encontraram alguns aspectos importantes:
(1) Quanto mais intenso o uso de drogas, mais fatores de risco existem. Por outro lado, vários estudos mostraram que o perigo difere de acordo com os indivíduos e seu contexto.

(2) Um segundo aspecto considerado se referiu à atitude positiva da família com relação ao uso de drogas, reforçando a iniciação dos jovens. Fatores parentais de risco para o uso de drogas pelo adolescente incluem, de forma combinada: ausência de investimento nos vínculos que unem pais e filhos, envolvimento materno insuficiente, práticas disciplinares inconsistentes ou coercitivas, excessiva permissividade, dificuldades de estabelecer limites aos comportamentos infantis e juvenis, tendência à superproteção, educação autoritária associada a pouco zelo e pouca afetividade nas relações, aprovação do uso de drogas pelos pais, etc.

(3) O envolvimento com amigos também tem sido visto como um dos maiores prenúncios do uso de substâncias. No entanto, nesse caso, a questão também não pode ser vista de forma simplista, pois o desenvolvimento de afiliações a amigos tolerantes e que aprovam as drogas representa o final de um processo onde fatores individuais, familiares e sociais adversos se combinam de forma a aumentar a probabilidade do uso abusivo.

(4) Muito se encontrou também sobre o papel da escola, seja como agente transformador, seja como local propiciador do ambiente que exacerba as condições para o uso de drogas. No âmbito educacional, existem fatores específicos que predispõem os adolescentes ao uso de drogas, como por exemplo, a falta de motivação para os estudos, o absenteísmo, o mau desempenho escolar, a intensa vontade de ser independente, a busca de novidade a qualquer preço, a rebeldia constante, etc.

(5) A disponibilidade e a presença de drogas na comunidade de convivência têm sido vistas como outros fatores de risco do uso de drogas por adolescentes, uma vez que o excesso de oferta naturaliza o acesso.

(6) Por último, se fala do papel da mídia como fator de risco. É certo que, sobretudo no caso das drogas lícitas, os meios de comunicação geralmente mostram imagens muito favoráveis. Mas não se pode demonizar a mídia: ela reflete a cultura vigente, e é um erro menosprezar a capacidade crítica dos jovens. Nenhuma propaganda por si só atinge efeito demoníaco de persuasão, quando fatores protetores atuam em direção contrária. O desenvolvimento de um espírito crítico e reflexivo na família, na escola e com os amigos serve de base para uma atitude criteriosa do adolescente quanto às mensagens relativas às drogas lícitas, veiculadas pelos meios de comunicação.

De acordo com os resultados encontrados, o estudo pôde concluir que as variáveis analisadas refletem tanto fatores de risco quanto de proteção, dependendo do modo como são vistas e trabalhadas. Analisando esses dois conceitos (proteção e risco), o estudo concluiu ainda que o uso de drogas é uma questão complexa que perpassa inúmeros subsistemas da vida individual e social. As representações sociais que levam à adesão ou à condenação dependem do contexto sociocultural. Os constrangimentos impostos numa determinada cultura são diversos em outras.

A problemática não se reduz ao contexto familiar. O indivíduo, inserido numa rede de relações, vive no contexto sociocultural e histórico. Mas a família tem um papel crucial: quando cuidadora, afetiva, amorosa e comunicativa, possui mais chances de promover condições de possibilidades para o desenvolvimento saudável dos filhos. Por isso, os programas de prevenção de uso de drogas precisam prever aplicações práticas de orientação familiar. A prevenção do abuso de drogas deve ser sinônimo de vida saudável, empreendimento tão importante para os jovens que deve incluir a família, a escola, o grupo de amigos, a comunidade e a mídia.

Promover um crescimento e desenvolvimento saudáveis, maior igualdade social e de oportunidades, atuar contra a pobreza e o racismo, voltar-se para o desenvolvimento do protagonismo juvenil são propostas que convergem para o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, e a favor da democracia.
Fonte: Ciência e Saúde Coletiva, vol.10 no. 3, Julho/Setembro de 2005.
Autor: Schenker M; Minayo, MCS
Fonte: OBID