Família, álcool e violência em uma comunidade da cidade do Recife

A família, além transmitir hábitos, costumes, idéias, valores e padrões de comportamento, pode ser também um espaço onde se manifesta a violência. No Brasil, a violência doméstica alcança cifras importantes: estima-se que três entre cada dez crianças de 0 a 12 anos sofram, diariamente, algum tipo de maus-tratos dentro da própria casa, perpetrados por pais, padrastos ou parentes. Diversas causas podem provocar a violência familiar, entre elas os fatores sociais que abrangem o uso de álcool e drogas, fenômeno comum na sociedade contemporânea.

Estudos epidemiológicos realizados no País ressaltam a importância do uso abusivo de álcool como um problema de saúde pública. O beber problemático produz um profundo impacto sobre toda a sua família, embora sejam as crianças e os adolescentes os mais afetados. Isso se dá pela relação entre os efeitos desinibidores do álcool e comportamentos agressivos ou sexuais.

Por essas razões, estudo publicado na Revista Psicologia em Estudo escolheu dois temas – violência e álcool – para serem estudados em famílias de baixa renda. Os autores investigaram os padrões de uso do álcool pelas famílias de uma comunidade localizada na região metropolitana da cidade do Recife – PE, e sua relação com comportamentos violentos.

Foram entrevistadas 79 famílias, de janeiro a abril de 2003. O questionário foi composto por 13 perguntas, que abordaram os temas organização familiar, uso de álcool e sinais de violência doméstica. Devido os diversos tipos de organização familiar, foram utilizadas várias categorias de família, entre elas: nuclear, composta por pai, mãe e filhos (mais tradicional); monoparental, na qual se identifica apenas um membro como responsável por sua manutenção; família recasada, aquela em que um dos membros, por ela responsável, já constituiu outras famílias anteriormente; e família extensa, onde é possível identificar outros familiares agregados.

Chamaram atenção os altos índices de famílias nucleares (48) e de famílias extensas (12), sendo que, nessas últimas, foram encontrados maiores índices de tensão do que nos outros modelos, pela limitação de alimentação e espaço. O Catolicismo foi a religião preferida entre as famílias (49,36%), seguida pelas igrejas evangélicas (16,45%). Com relação à renda mensal, 35,44% das famílias recebia entre 100 e 200 reais. Com relação ao uso de álcool, a pesquisa demonstrou que seu uso na comunidade alcança níveis significativos. Chamou atenção dos pesquisadores o consumo semanal do álcool, cuja preferência, em todas as categorias familiares, se deu nos finais de semana. O uso de bebidas alcoólicas é feito por todos os membros da família: pai, mãe e filhos, com predominância do pai, seguido pela mãe. As famílias com apenas um genitor do sexo feminino (monoparentais), apresentaram as maiores taxas de ingestão de bebidas alcoólicas, seja por um incremento da ansiedade pela responsabilidade familiar, seja pelo padrão atual de ingestão de bebidas alcoólicas pelo sexo feminino.

O único dado consistente em relação ao não-uso de bebidas alcoólicas foi obtido nas famílias evangélicas: cerca da metade das famílias abstêmias da comunidade pertenciam a essas igrejas.

Quanto à violência, 72,84% das famílias manifestaram comportamentos violentos, sendo que 31,42% classificaram a agressão como “Bater”, e 41,42% como “Castigar”.

A pesquisa concluiu que o uso abusivo de bebidas alcoólicas nos finais de semana, associado às fortes pressões socioeconômicas, estilo educacional rígido e punitivo, e ambiente sociocultural complexo e exigente, conduzem essas famílias a comportamentos violentos, impulsionados e modulados por esses mesmos elementos.

Fonte: Psicologia em Estudo, v. 10 n. 2, mai./ago. 2005, 201-208.
Fonte: Melo, ZM; Caldas, MT; Carvalho, MMC; Lima, AT