Psiquiatra defende tratamento diferenciado para dependência alcoólica feminina

Ainda na faculdade de medicina, a paulistana Mônica Zilberman se interessou pela delicada questão do alcoolismo feminino. Hoje, aos 37 anos, a Psiquiatra defende tratamento diferenciado para mulheres, principalmente porque, deprimidas ou envergonhadas, elas procuram ajuda em menor proporção do que eles. “A dependência de álcool entre homens sempre foi mais tolerada. Uma mulher alcoolizada é vista como mais permissiva e mais disponível sexualmente, estigmas que fazem com que muitas não procurem ajuda”, diz a Médica, Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Recentemente, Mônica abriu o primeiro grupo específico de ajuda a mulheres dependentes de álcool no HC/SP. O grupo segue a mesma linha adotada pela psiquiatra Sheila Blume, da Universidade de Nova York, com a qual a brasileira mantém parceria em estudo sobre tratamento diferenciado por gêneros. Hoje, 6% das brasileiras são dependentes do álcool. Entre os homens, são 11%.
Após participar do V Simpósio Internacional sobre Álcool e Outras Drogas, no mês passado, no Rio de Janeiro, Mônica falou a Criativa.

Por que a senhora prega tanto um tratamento diferenciado para mulheres alcoolistas?

Para que elas fiquem mais à vontade para buscar ajuda e falar. Por trás da doença, há problemas como violência e abuso sexual. Algumas mulheres começam a beber para lidar com essas questões. Muitas sofrem de depressão.

Qual é a relação entre a depressão e o alcoolismo?

Embora muitos homens também tenham depressão, ela é quase sempre secundária, ou seja, é causada pelo uso do álcool, que é um depressor do sistema nervoso central. Nas mulheres, ocorre o inverso: a depressão é causa primária, portanto cuidar dela está diretamente relacionado a tratar o alcoolismo.

O que mais leva mulheres a beber?

A genética é importante, mas, entre as mulheres, o que mais conta são fatores ambientais, como baixa auto-estima, problemas causados por traumas sexuais, o exemplo dos pais (se eles bebem demais), mágoas de amor, dificuldades no relacionamento. E tudo isso é abordado nos grupos de tratamento.

Pesquisas revelam que a mulher é “mais fraca” para a bebida. Por quê?

A mulher é fisiologicamente menos tolerante do que o homem por dois motivos. Primeiro, tem menos água no corpo e o álcool é hidrossolúvel, se dilui em água. Então, ele fica mais concentrado no organismo feminino do que no masculino. Outra diferença é uma menor quantidade no estômago da enzima desidrogenase alcoólica, responsável por parte do metabolismo do álcool. Isso faz com que elas desenvolvam mais rápido o alcoolismo e problemas de saúde como cirrose hepática, demências alcoólicas, dificuldade de concentração, aprendizado, morte de neurônios. O álcool até reduz a fertilidade.

Existe relação entre o consumo excessivo de álcool e o uso de drogas?

Sim, e a porta de entrada para as drogas é o consumo indiscriminado de calmantes. Os médicos os prescrevem bem mais para mulheres do que para homens. Esses remédios causam dependência e muitas partem depois para drogas ilícitas. Também estamos percebendo algo mais grave: o aumento do consumo de drogas e álcool em adolescentes. Temos mais meninas do que meninos nesse grupo. Para cada dois homens alcoólatras, há uma mulher; entre adolescentes, essa proporção é de um para um. Há ainda mais meninas do que meninos se iniciando no uso de maconha e cocaína.

Qual é o limite entre beber socialmente e ser dependente?

O que define o alcoolismo não é exatamente a freqüência ou a quantidade de bebida ingerida, mas o sofrimento e os problemas pessoais ou profissionais que ela causa. Um parâmetro é quando o consumo leva a conseqüências freqüentes, como perder a hora no trabalho por causa da ressaca. Existe um teste, desenvolvido para mulheres, que ajuda a medir quando a pessoa precisa se preocupar com isso.
Fonte: Revista Criativa