Uso indevido de benzodiazepínicos: um estudo com informantes-chave no Município de São Paulo

Os Benzodiazepínicos – BDZs, são drogas com atividade ansiolítica (sedativa, hipnótica e narcótica) que começaram a ser utilizadas na década de 60. Além da elevada eficácia terapêutica, os BDZs apresentaram baixos riscos de intoxicação e dependência, fatores que propiciaram uma rápida aderência da classe médica a esses medicamentos. Nos anos posteriores, foram observados os primeiros casos de uso abusivo, além de desenvolvimento de tolerância, de síndrome de abstinência e de dependência pelos usuários crônicos de BDZs. Tais evidências modificaram a postura da sociedade em relação a droga que, do auge do entusiasmo nos anos 70, passou à restrição do uso a partir da década seguinte.

O I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, realizado em 2001 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – Cebrid, mostrou que 3,3% da população entre 12 e 65 anos já fizeram uso de benzodiazepínicos sem receita médica, pelo menos uma vez na vida. Além disso, a realidade brasileira indica a necessidade de uma ampla revisão no atual sistema de controle dessas substâncias, bem como do papel dos profissionais de saúde nesse sistema.

Estudo publicado na Revista Latino-Americana de Enfermagem teve como objetivo avaliar o contexto brasileiro de disponibilidade e consumo de benzodiazepínicos, a partir do ponto de vista dos usuários e dos profissionais de saúde envolvidos no sistema de prescrição e dispensação desses medicamentos.

O estudo utilizou a metodologia qualitativa. Foram utilizados informantes-chave – IC, que na literatura antropológica e sociológica, são pessoas que pertencem ao grupo a ser estudado e/ou que conhecem bem o assunto pesquisado, representando assim uma preciosa fonte de informações. Para este estudo, foram incluídos como ICs: médicos prescritores de BDZs, psiquiatras e psicólogos que já haviam atendido pacientes com histórico de uso prolongado de BDZs; farmacêuticos com vivência na dispensação; usuários crônicos de BDZs; profissionais envolvidos na implementação de políticas de saúde. Com cada um dos 19 participantes foi realizada uma entrevista, para obter informações sobre o controle, a prática de prescrição e dispensação, bem como sobre o uso indevido de BDZs ao longo dos últimos anos.

A maioria dos entrevistados relatou ser freqüente a obtenção de prescrição de benzodiazepínicos por solicitações junto aos médicos, sem necessidade de consulta formal. Os usuários relataram histórico de uso prolongado (entre 2 e 8 anos) com finalidades outras que não apenas a terapêutica. Enfatizaram também a facilidade em adquirir a medicação e a falta de orientação médica sobre os cuidados necessários durante o tratamento.

A pesquisa concluiu que o uso indevido de BDZ envolve, além dos usuários, os médicos que prescrevem a medicação e os farmacêuticos que a dispensam. A falta de informação e a baixa percepção das conseqüências prejudiciais do uso indevido de BDZ, por estes três personagens (médico, farmacêutico e usuário), foram alguns dos principais fatores que favorecem esse fenômeno. As falhas no sistema de controle, apesar de ocorrerem, não parecem ser os principais fatores. Dessa forma, intervenções no sentido não apenas de controlar, mas de informar médicos, farmacêuticos, enfermeiros e pacientes, parecem ser as formas de atuação mais promissoras frente a essa realidade.

FONTE: Revista Latino-Americana de Enfermagem, 13(número especial):896-902, setembro-outubro de 2005. Sítio: www.eerp.usp.br/rlae
Fonte: Orlandi, P; Noto, AR.