Álcool agrava casos de transtorno bipolar

Nos últimos anos, uma doença pouco conhecida da população vem chamando a atenção de médicos e psicólogos. O transtorno bipolar é um problema crônico, que não tem cura, e geralmente se manifesta depois dos 20 anos. Segundo a literatura, esse mal afeta 1% dos indivíduos de ambos os sexos. Mas alguns estudos sugerem que, devido à dificuldade do diagnóstico, esse índice seja subvalorizado. Os trabalhos mais recentes indicam que em alguns países a prevalência varia entre 4% e 5%. É uma taxa alta se comparada à do alcoolismo, por exemplo, que ataca cerca de 10% da população geral.

Uma das formas mais conhecidas da doença é o transtorno bipolar do humor, problema cíclico e recorrente em que o portador alterna fases de depressão com quadros maníacos de extrema euforia. A crise, em geral, dura duas semanas. Nesse período, o paciente adota atitudes atípicas de comportamento em relação ao seu estado normal.

Durante o episódio maníaco, apresenta auto-estima elevada e otimismo injustificado. Por isso, envolve-se de forma imprudente em atividades prazerosas, como surtos de compras, investimentos financeiros tolos e comportamento sexual desinibido.

As causas da doença ainda estão sendo estudadas, mas uma das hipóteses mais prováveis é que seja provocada por alterações genéticas. Apesar de não ter cura, é possível controlar o transtorno com tratamento medicamentoso. Nesse caso, a tendência é que o ciclo se repita a cada cinco anos. Mas, se o problema não for tratado, as crises ocorrem de dois em dois anos e podem se tornar cada vez mais freqüentes.

Não são raros os casos de pacientes casados que se envolvem em aventuras extraconjugais durante o período de crise. “Isso acontece por causa da hipersexualidade. As pessoas ficam mais agitadas, têm uma aceleração motora e psíquica. É uma fase em que as mulheres, por exemplo, se maquiam de maneira excessiva”, explica Giuliana Cividanes, Psicóloga da Unifesp.

Da euforia à depressão
Depois que se dão conta dos desvios de comportamento, é comum a muitos pacientes entrar em depressão. “No período de euforia, eles têm manias que dificilmente são controladas. Quando percebem o aconteceu, é natural que fiquem abalados”, comenta a psicóloga.

É nesse ponto que surge um fator que pode agravar ainda mais o problema: o abuso de bebidas alcoólicas. O assunto foi tema da dissertação de mestrado de Giuliana, o primeiro trabalho brasileiro que analisou a associação entre a doença e algum tipo de transtorno por uso do álcool. Dos 85 pacientes com transtorno bipolar que participaram da pesquisa – 41% em tratamento ambulatorial e 51% internados -, 22,4% apresentaram dependência ou abuso da bebida. O percentual é cinco vezes maior do que o da população geral.

O estudo mostrou ainda que os homens são os mais atingidos: 36,8% têm algum transtorno por uso do álcool. Entre as mulheres, a taxa é de 18,2%.

A principal constatação de Giuliana, no entanto, está na relação entre os dois problemas. A bebida agrava o prognóstico e pode antecipar o início da doença. Ela observou também que os pacientes que apresentaram os dois tipos de transtorno – bipolar do humor e por uso do álcool – tiveram maior número de internações psiquiátricas ao longo da vida. “Em geral, os portadores que usam bebidas alcoólicas não seguem o tratamento corretamente. Além disso, o álcool anula o efeito do medicamento”, esclarece.

Em conseqüência, ocorre o que os especialistas chamam de efeito de Kidling. Com o aumento do número de ocorrências não tratadas pode haver crises cada vez mais graves e freqüentes.
Fonte: Assessoria de Imprensa da Unifesp