O consumo de cafeína durante a gestação aumenta o risco de mortalidade fetal?

Artigo publicado nos Cadernos de Saúde Pública avaliou a evidência epidemiológica existente a respeito do efeito do consumo de cafeína durante a gravidez sobre a mortalidade fetal

A cafeína é a substância farmacologicamente ativa mais ingerida no mundo. As fontes de cafeína mais conhecidas são: café, chocolate, chás, e refrigerantes do tipo cola. A cafeína constitui ainda uma parcela substancial de muitos medicamentos consumidos sem receita médica, como comprimidos para alergia, analgésicos, supressores de apetite, diuréticos e estimulantes.

Segundo estudos com animais, o consumo de cafeína durante a gravidez foi sugerido como um fator de risco para resultados reprodutivos adversos. O que é biologicamente plausível, uma vez que a cafeína ingerida pela mãe é absorvida rapidamente, cruza a placenta, e é distribuída a todos os tecidos fetais, inclusive para o Sistema Nervoso Central – SNC. Os efeitos potenciais da cafeína no desenvolvimento fetal podem seguir do maior acúmulo de cafeína em mulheres grávidas (a meia vida metabólica da cafeína em gestantes aumenta de 4 horas durante o primeiro trimestre de gravidez para 18 horas durante o terceiro trimestre).

Embora muitos trabalhos epidemiológicos sejam conduzidos, os resultados destes estudos sobre a associação entre o consumo da cafeína e a mortalidade fetal, em seres humanos, ainda disponibilizam informações escassas. Artigo publicado nos Cadernos de Saúde Pública avaliou a evidência epidemiológica existente a respeito do efeito do consumo de cafeína durante a gravidez sobre a mortalidade fetal.

Foi realizada uma revisão qualitativa da literatura. Estudos publicados entre janeiro de 1966 e setembro de 2004 foram procurados, e um total de quatro publicações foram incluídas na revisão, sendo duas norte-americanas, uma dinamarquesa e uma canadense.

Os resultados mostraram que, dos quatro estudos incluídos, dois investigaram morte fetal com 28 semanas completas de idade gestacional ou mais; um incluiu abortos e morte fetal; e o outro estudou morte fetal, mas não definiu este termo. De acordo com os critérios de avaliação propostos, os estudos não definiram os resultados principais, não apresentaram a distribuição das variáveis de confusão, e não descreveram as características da população que deixou de responder aos questionários. Por isso, suas validades externa e interna foram duvidosas.

O artigo concluiu que o pequeno número de estudos abordando o tema, as limitações metodológicas, os riscos marginalmente significativos na maioria dos casos e a possibilidade de viés de publicação impedem que se afirme que o consumo de cafeína esteja associado à morte fetal, apesar da plausibilidade biológica de que a substância possa aumentar esse risco. A revisão destacou ainda a necessidade de que pesquisas futuras definam o papel da cafeína na mortalidade fetal, e tentem responder à questão. Embora a informação disponível que liga a cafeína à morte fetal esteja incompleta, muitas organizações de saúde recomendam que mulheres grávidas reduzam o consumo de cafeína. Embora a suspeita ultrapasse a evidência no presente, tal cuidado parece ser prudente.
Autor: Matijasevich, A; Santos, IS; Barros, FC.
Fonte: OBID