Droga corporativa

O Adderall, um medicamento para tratar déficit de atenção e hiperatividade, é a nova droga preferida pela turma dos jovens executivos americanos. O remédio é a mistura de D-anfetamina e Meta-anfetamina (também conhecida como Ice). “As duas substâncias têm um histórico triste”, afirma Elisaldo Carlini, Diretor do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e membro titular do International Narcotrics Control Board da Organização das Nações Unidas – ONU. “As famosas bolinhas de D-anfetamina já causaram muitos problemas no passado e a Ice virou mania entre os jovens recentemente”, conta.

Para ele, juntar as duas em um único comprimido beira a irresponsabilidade. Muitos países, como o Canadá, já desautorizaram a venda do medicamento e outros, como o Brasil, nem chegaram a vendê-lo. Nos Estados Unidos, no entanto, o problema toma proporções preocupantes.
Acredita-se que o problema americano começou com o excesso de diagnósticos de déficit de atenção nos pequenos. Dessa forma, as anfetaminas acabaram se tornando um remédio muito comum e com perfil de drogas para criança, favorecendo o abuso.

A droga é controlada, com exigência de receita médica, mas os executivos não têm tido dificuldade em burlar o sistema. O órgão que controla a venda de remédios e alimentos nos Estados Unidos – FDA (sigla em inglês), e a ONU estão em alerta porque as anfetaminas não são inofensivas. Longe disso. Elas podem causar dependência, aumentam o risco de parada cardíaca, de crise hipertensiva e de hemorragia cerebral – exatamente como a cocaína. Um dos grandes problemas das anfetaminas é que o corpo vai, com o tempo de uso, aumentando sua tolerância à substância e isso faz com que a pessoa precise de quantidade cada vez maior da droga para que surta o efeito desejado, gerando o mesmo ciclo vicioso que sua concorrente branca.

O Adderall é apenas a nova marca de uma dependência cada vez mais freqüente nos países desenvolvidos. Foi-se o tempo em que os engravatados de Wall Street precisavam ir escondidos até o banheiro para usar cocaína e, com sua necessidade atendida, manter o pique no trabalho frenético. Hoje o movimento é bem mais simples. Sem sair da mesa e sem enfrentar a conotação pesada de estar portando algo ilegal, os jovens executivos americanos têm trocado a cocaína por cápsulas de anfetamina. Tomam no meio de uma reunião ou tranqüilamente na frente de desconhecidos sem serem questionados. Além desse “conforto”, muitos acreditam que usar um remédio em vez de uma droga é menos nocivo para o corpo.

Desde que foram sintetizadas e indicadas para o tratamento de alguns distúrbios, as anfetaminas vêm sendo usadas também como estimulante. Mas seu uso era restrito a jovens em fase de experimentação e baladeiros. O aumento desse abuso e a mudança do perfil do usuário é que têm tirado o sono das autoridades americanas. “Essas drogas dão uma euforia, a pessoa fica, desinibida e os adultos gostam disso”, conta Carlini. Ele garante: “Trocar cocaína por anfetamina é mudar de seis para meia dúzia”.
Fonte: Revista Época