Efeitos do consumo de bebida alcoólica sobre o feto

Entre as substâncias conhecidas como teratógenas (que podem causar anomalias), o álcool é, provavelmente, a mais estudada. As crianças nascidas de mães alcoolistas foram descritas em estudos como fracas, débeis e desatentas. Mesmo assim, até o início do século XX a idéia de que beber durante a gravidez poderia prejudicar o desenvolvimento do feto era interpretada como moralista. Até a descoberta da Síndrome Alcoólica Fetal -SAF, que é um padrão específico de malformações em crianças nascidas de mulheres que bebem. É uma condição irreversível caracterizada por anomalias no crânio e na face, deficiência de crescimento, disfunções do sistema nervoso central e várias malformações associadas.

A bebida alcoólica ingerida pela gestante atravessa a barreira placentária, o que faz com que o feto esteja exposto às mesmas concentrações de álcool do sangue materno. Porém, a exposição fetal é maior, devido ao metabolismo e eliminação serem mais lentos, fazendo com que o líquido amniótico permaneça impregnado de álcool. Isso tem efeitos diretos sobre vários fatores de crescimento celular, inibindo a proliferação de certos tecidos. Entretanto, a suscetibilidade fetal ao álcool depende da quantidade ingerida, época da exposição, estado nutricional e capacidade de metabolização materna e fetal. A quantidade segura de álcool que uma gestante pode consumir não está definida, por isto recomenda-se abstinência total durante toda a gravidez.

Calcula-se que 10% das crianças nascidas com restrição de crescimento intra-uterino nos Estados Unidos tenham como causa a exposição fetal ao álcool, e ainda, que 11% dos pacientes institucionalizados por deficiência mental naquele país sofram dos efeitos teratógenos do álcool. No Brasil existem poucos dados sobre a incidência de efeitos teratógenos do álcool. Estima-se incidência de alcoolismo materno em 6 de cada 1.000 gestantes, e a incidência de SAF em 1 de cada 1.000 recém-nascidos. No entanto, calcula-se que um quarto das grávidas deste país faça uso esporádico de bebida alcoólica.

Estudo publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia teve como objetivo verificar o consumo de álcool na gravidez e avaliar os possíveis efeitos teratógenos desta substância sobre os fetos.

Para o estudo, foram entrevistadas 150 parturientes (mulheres em trabalho de parto) de uma maternidade de Ribeirão Preto-SP, no período de abril a novembro de 2004. Elas foram divididas em consumidoras e não-consumidoras de álcool durante a gestação. Os recém-nascidos destas mulheres foram avaliados em relação ao peso, comprimento e perímetro cefálico (tamanho do crânio) no nascimento. Estes parâmetros foram comparados com o consumo de bebida alcoólica pelas mulheres.

Os resultados mostraram que, das mulheres entrevistadas, 79,3% (119) não foram identificadas como consumidoras de álcool pelo questionário, ao passo que 20,7% (31) foram consideradas consumidoras. A média de comprimento dos recém-nascidos cujas mães não consumiram álcool foi de 48,2 cm, e naqueles cujas mães ingeriram bebida alcoólica foi de 46,7 cm e esta diferença foi significante. Também se observou redução média de 109g no peso e de 0,42cm no perímetro cefálico nos filhos de mães consumidoras de álcool, sendo que nos fetos do sexo feminino a redução de peso foi mais acentuada: 186g.

A pesquisa concluiu que o uso de álcool na gravidez está associado à restrição do crescimento fetal, sendo os fetos do sexo feminino aparentemente mais suscetíveis aos efeitos do álcool.
Autor: Freire, TM; Machado, JC; Melo, EV; Melo, DG
Fonte: OBID