Pesquisas associam o uso de álcool à repetência escolar

O consumo de drogas, como o álcool, pelos estudantes brasileiros está causando ressaca nas salas de aula de muitas escolas. Segundo levantamento da Secretaria Nacional Antidrogas – Senad e do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – Cebrid, 45,9% dos jovens que usam ou já usaram drogas (ilícitas ou não) estão atrasados pelo menos um ano em relação à série considerada ideal. Entre os estudantes que não consomem drogas, este índice cai para 33,4%. De acordo com a pesquisa, divulgada recentemente e realizada em 2004 com 48.155 jovens, o álcool continua sendo a droga mais consumida entre os estudantes. Segundo especialistas, cerca de 65,2% dos alunos já consumiram bebida alcoólica e 41,2% deles iniciaram o uso entre 10 e 12 anos.

Os dados divulgados fazem parte do V Levantamento Nacional Sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública de Ensino, realizado em 27 capitais brasileiras. Nos quatro estudos anteriores, apenas jovens de dez capitais foram entrevistados. Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa, Secretário Nacional Antidrogas, diz que os números são um instrumento importante para a elaboração de políticas públicas “É crime vender bebida para menores, mas muitos têm acesso ao álcool em casa. A escola tem papel fundamental para identificar o problema e orientar o adolescente”.

Mas identificar o problema nem sempre é fácil, pois muitos estudantes deixam de ir à escola por causa dos efeitos das drogas. Segundo a pesquisa, 53,6% dos entrevistados que usam ou já usaram drogas tinham faltado à escola pelo menos um dia no último mês. Alba Rodrigues Cruz, Subsecretária de Planejamento Pedagógico da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, diz que as escolas da rede estadual fazem um trabalho de prevenção. Mas, segundo ela, o assunto ainda é tabu “Se é difícil tratar desse tema em casa, com a família, imagine numa unidade escolar. O uso de drogas é uma das causas da evasão, mas não temos esse dado quantificado separadamente. As drogas entram no item “outros”, que representa 41,59% do total das causas de evasão na rede” diz Alba, acrescentando que a secretaria desenvolve um projeto de prevenção em nove pólos no estado e repassa as ações educativas para cerca de mil escolas estaduais.

Segundo Carlos Henrique M. Veloso, Consultor em dependência química e Professor da Escola Técnica de Saúde Herbert Daniel de Souza, da Fundação de Apoio à Escola Técnica, os estudantes em geral optam pelo álcool por causa do efeito relaxante que a bebida proporciona. “Eles recorrem ao álcool para reduzir a ansiedade, mas o problema é que a bebida afeta o sistema nervoso central e, depois, causa dor de cabeça, indisposição. Ninguém agüenta ir à escola assim. E sabe como o jovem cura isso, volta a ficar relaxado? Bebendo mais. Vira um círculo vicioso” diz Carlos Henrique, acrescentando que muitos estudantes bebem para fugir de sua realidade social. A pressão é grande, o jovem muitas vezes não tem perspectiva para o futuro. Na escola, por exemplo, nem sempre ele é estimulado. Em casa, muitos passam por problemas financeiros, o pai está desempregado. O álcool infelizmente entra como um paliativo nesse universo.

Segundo a Senad, o álcool é apenas uma das drogas lícitas usadas pelos estudantes. Das sete drogas preferidas pelos adolescentes, só uma é ilícita (maconha). Eles também fazem uso com freqüência de cigarro, solvente, energéticos, ansiolíticos (tranquilizantes) e anfetaminas.
Fonte: Folha de São Paulo