Uso de remédios sem receita médica por estudantes é preocupante

O medicamento não é apenas uma droga aceita e utilizada mundialmente como um dos mais importantes recursos terapêuticos da medicina moderna. O medicamento também pode ser uma droga de abuso, causando tantos males quanto aqueles causados por diversas drogas de uso lícito ou ilícito, tais como dependência, síndrome de abstinência e distúrbios comportamentais. De acordo com registros do Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas em 2001, da Fundação Oswaldo Cruz os medicamentos lideravam a lista de agentes causadores de intoxicação nos brasileiros.

Pesquisas mostram que o álcool e o tabaco são as drogas lícitas mais utilizadas entre estudantes brasileiros, mas poucas pesquisas foram feitas em relação ao uso abusivo de medicamentos psicotrópicos. O presente estudo teve como objetivo investigar a prevalência e os riscos do uso não-médico de medicamentos psicoativos e sua distribuição em relação a fatores sócio-demográficos entre escolares. Com um conhecimento mais abrangente do padrão de uso não-médico de medicamentos, é possível traçar medidas restritivas e educativas que venham a reduzir o problema.

Participaram da pesquisa aproximadamente 5000 estudantes escolhidos por sorteio, de escolas públicas e particulares da cidade de Passo fundo, RS, Brasil; matriculados da quinta série do ensino fundamental até o terceiro ano do ensino médio. Os alunos responderam a um questionário sobre drogas elaborado pela Organização Mundial da Saúde – OMS e adaptado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas – CEBRID da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

O perfil de experimentação e consumo de medicamentos sem receita médica pelos estudantes apresentou diversos pontos em comum com os resultados obtidos em grandes centros urbanos do Brasil. Os medicamentos mais utilizados na vida, de acordo com o relato dos participantes, foram os ansiolíticos (um tipo de tranqüilizante), seguido dos anfetamínicos (estimulantes). Dos participantes, 7,7% consumiram ansiolíticos alguma vez na vida, 6,4% anfetaminas, 2,2% anabolizantes (substância que auxilia no aumento da massa muscular) e 1,1% barbitúricos (derivado de ácido). Estudantes do sexo feminino apresentaram maior consumo de ansiolíticos e anfetamínicos, enquanto que o consumo de anabolizantes foi maior no sexo masculino. O padrão de consumo de medicamentos psicoativos foi semelhante ao observado em adultos.

A pesquisa concluiu que os programas destinados à prevenção do uso abusivo de substâncias psicoativas tendem a não valorizar corretamente a relevância do uso dos medicamentos, apesar dos reconhecidos riscos para a saúde associados ao seu uso e agravado quando esse é desnecessário ou inadequado. É importante destacar que a facilidade de acesso a esses produtos no Brasil aumenta os riscos do seu abuso por crianças e adolescentes. Os autores recomendam que entre as diretrizes que norteiam as ações de prevenção ao uso indevido de drogas, devem ser previstos um maior rigor no controle da venda para menores de idade e que as campanhas educativas voltadas para a população juvenil enfatizem os riscos do consumo dos medicamentos psicoativos mais consumidos.
Fonte: OBID