ONU alerta que o Brasil é rota de cocaína vendida em Oceania e África

Um relatório da Organização das Nações Unidas – ONU sobre a produção e o consumo mundial de drogas adverte que grande parte dos carregamentos de cocaína apreendidos na Austrália, Nova Zelândia e África tem como origem o Brasil. O documento, produzido pela Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes – JIFE, informa que, embora não seja um País produtor, o Brasil continua sendo profundamente afetado pela rota do tráfico da cocaína produzida na Colômbia, Bolívia e Peru e exportada para outros grandes centros do mercado internacional de consumo da droga.

Os técnicos da ONU afirmam ainda que a corrupção e a lavagem de dinheiro têm prejudicado muito iniciativas de redução do narcotráfico nos países da América do Sul. O documento não especifica esses esquemas de corrupção e nem quais são os países mais afetados pelo envolvimento de setores públicos com o narcotráfico.

Organismo sugere ações sociais contra o tráfico diante destes problemas, a ONU recomenda que os governos locais implementem programas econômicos e sociais alternativos não apenas nas áreas de produção das drogas. Para a organização, é importante que os governos invistam e ofereçam fontes de renda também nos bairros pobres de grandes cidades afetadas pelo tráfico .

Só assim seria possível atrair a mão-de-obra que hoje presta serviços nas plantações e nas áreas de comércio das drogas. No relatório, a ONU chama atenção para as grandes plantações de maconha no Norte e Nordeste e para o aumento do consumo de anoréxicos em território brasileiro. Redutores de apetite, os anoréxicos são usados também por jovens e adultos interessados em seus efeitos estimulantes.

O consumo indiscriminado de determinados anoréxicos pode causar graves danos à saúde ou mesmo levar o usuário à morte. Muitos anoréxicos, vendidos livremente em boa parte das farmácias brasileiras, são produzidos à base de anfetaminas, substância também encontrada na cocaína. “Em alguns países, em particular Austrália, Brasil, Cingapura e República da Coréia, tem crescido sensivelmente o consumo de anoréxicos per capitã”, avisa o item 142 do relatório, um documento de 122 páginas.

Em contraste, o texto constata o declínio do consumo desse tipo de medicamento em países europeus como França, Itália, Portugal e Dinamarca, entre outros. Os autores do levantamento não apontam as razões do crescimento do comércio de anoréxicos no Brasil. Mas renovam o apelo para que os governos do Brasil e de outros países prestem atenção na elevação do consumo deste tipo de medicamento e adotem as devidas medidas preventivas.

A ONU alerta para o papel do Brasil como base operacional do tráfico internacional de cocaína não apenas para os Estados Unidos, mas também para países da Oceania e da África. “Das mais recentes investigações, concluiu- se que a maior parte da cocaína apreendida na Nova Zelândia provém do Brasil, do Chile e tem como destino a Austrália”, diz o relatório.

O aviso aparece também no capítulo sobre a expansão do narcotráfico em países africanos, considerados grandes consumidores de maconha e importantes centros de exportação de cocaína e outras drogas para a Europa. “Outras novidades na África se vinculam ao aumento da interceptação de cocaína (expedida a partir do Brasil) no sul da África”, informa o relatório.

Segundo o documento, só em duas operações no Quênia, as autoridades locais apreenderam duas toneladas de cocaína enviadas supostamente a partir de bases brasileiras. Na lista de problemas brasileiros com drogas, a ONU reafirma ainda antiga preocupação com as zonas de produção de maconha no Norte e Nordeste do país e com a importação da droga do Paraguai.

Maconha do Paraguai é exportada para o Brasil

São preocupações partilhadas também pela Polícia Federal – PF. Relatórios reservados da PF têm apontado a difusão dos plantios de maconha até em reservas indígenas de Pernambuco, Maranhão e Pará, entre outros estados. O relatório da ONU sustenta que o solo paraguaio, principalmente na fronteira com o Brasil, é fértil e propício ao cultivo da maconha. Tudo isso com o agravante de que só 10% da maconha produzida no Paraguai se destina ao consumo interno. O restante é exportado para o Brasil e outros países da região.

Pelos dados da PF, um quilo de maconha pode ser comprado a R$ 15,00 no Paraguai e revendido em Brasília por R$ 500,00. A ONU informa que o plano de erradicação das plantações de coca na Colômbia, ancorado na ajuda financeira dos Estados Unidos, reduziu as áreas de cultivo da droga no país, mas não impediu seu alastramento em países como Bolívia e Peru. Esses problemas transbordam as fronteiras dos países e afetam o comércio da droga em cidades brasileiras.

A JIFE observa com inquietação que o volume sistematicamente elevado de apreensões de cocaína, nesta e em outras regiões, assim como de pasta base e precursores, não deram lugar à redução da oferta da cocaína no mundo.
Fonte: O Globo