Fumante por tabela

Quem gostaria de ser exposto à fumaça que desprende do escapamento do carro? Ninguém em sã consciência. Mas o inalante da fumaça do cigarro muitas vezes não tem escapatória porque o fumante pode estar ali do lado, até mesmo na cama, no sofá, no restaurante. O fumante passivo ou ambiental geralmente enfrenta a situação com alguma dose de impotência, mas precisa ficar alerta para os resultados de expor-se às conseqüências de uma dependência que é do outro. “Para cada fumante, há dois fumantes passivos”, alerta o Pneumologista Sérgio Ricardo Santos, Coordenador do Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo – PrevFumo, criado em 1990 e vinculado à disciplina de Pneumologia da Universidade Federal de São Paulo -Unifesp.

Levantamento da Organização Mundial da Saúde – OMS aponta a área doméstica como a maior fonte de fumaça passiva. Em segundo aparecem os ambientes profissionais e de lazer. As conseqüências afetam não-fumantes, em diferentes escalas, nas três situações. Também segundo a OMS, o tabagismo passivo constitui-se na terceira maior causa de morte evitável no mundo.

Risco na infância

Tudo começa com os sintomas mais brandos. Os efeitos imediatos da exposição à chamada poluição tabagística ambiental – PTA, incluem tosse, irritação nos olhos, manifestações nasais e aumento de problemas alérgicos. “Em menor escala, o passivo terá as mesmas doenças do sistema respiratório que o fumante desenvolve, mas nunca é demais lembrar que a exposição constante amplia os riscos”, diz Miguel Tedde, Médico Assistente do Serviço de Cirurgia Torácica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Outros efeitos a médio e longo prazo são a maior incidência de males cardíacos associados à hipertensão e angina (dor no peito), além de redução na capacidade funcional respiratória, aumento do risco de aterosclerose (obstrução nas artérias que irrigam o coração) e de infecções respiratórias.
É na infância que mora o maior perigo da inalação passiva de fumaça. Quando a mulher fumante engravida, o risco inicia-se intra-útero. “O bebê pode nascer prematuramente e com baixo peso. Pode ocorrer descolamento prematuro da placenta e hemorragias com possível aborto”, detalha o pneumologista Sérgio Santos. Os malefícios do tabaco perseguem a criança ao nascer – ela tende a manter baixo peso e ter distúrbios de desenvolvimento (motor e intelectual). Há registros, segundo o médico, de bebês cujas mães resolvem parar de fumar durante a amamentação, que chegam a apresentar sintomas da síndrome de abstinência, como irritabilidade, choro fácil e tremor de braços e pernas.

Partículas danosas

Na primeira infância (período que compreende de um a cinco anos), surge uma série de infecções respiratórias que lotam os pronto-socorros pediátricos. As crianças cujas mães fumam são naturalmente candidatas a sofrerem mais episódios de otites, faringintes, laringites, sinusites e traqueobronquites. “Essas crianças são obrigadas, ao conviverem com pai ou mãe, ou ambos, fumantes, a aspirar continuamente partículas altamente danosas ao aparelho respiratório e a outros órgãos”, confirma Miguel Tedde.

Estudo publicado em 2003 pelo periódico científico “British Medical Journal” constatou que os pequenos expostos à fumaça diariamente têm a saúde 3,63 vezes mais afetada e são mais vulneráveis que aqueles que vivem em ambientes livres de fumaça.

São descritos mais de quatro mil componentes químicos que resultam do processamento e combustão do tabaco, todos eles maléficos à saúde. Eles se espalham no ambiente por meio da fumaça emitida a cada tragada ou à simples queima do cigarro acesso. “O fumante entra em contato direto com a chamada corrente primária da fumaça, que ele inala diretamente quando fuma e que entra pela boca e segue para os pulmões, onde é absorvida”, explica Sérgio Ricardo. Há ainda a corrente secundária, que sai da ponta do cigarro e não passa pelos filtros presentes hoje na maioria das marcas. Esta é potencialmente mais tóxica. Para a sorte do fumante passivo, a quantidade inalada é tanto menor quanto maior distância ele estiver do fumante. Inexiste, porém, uma distância considerada efetivamente segura.

Circulação da fumaça

No ambiente do trabalho e em transporte coletivo o não-fumante provavelmente terá mais chance de estar a salvo da fumaça emitida pelo cigarro alheio, mas dificilmente estará livre em casa ou restaurantes (que apenas separam corredores, mas não inibem a circulação de ar) e, portanto, da fumaça expelida pelos tabagistas.

Os médicos concordam que a legislação brasileira é bastante restritiva quanto à proibição do fumo em lugares fechados, a ponto de o país ser considerado vanguarda, mas criticam a falta de sanção aos infratores. O cirurgião Miguel Tedde deu-se ao trabalho, há alguns anos, de estudar toda a legislação sobre o assunto e verificou que nenhum dos instrumentos legais fazia menção a penalidades. “Nunca ouvi falar de ninguém que tenha sido multado ou retirado de algum lugar por estar fumando sem ser permitido,” critica.

O Pneumologista Sérgio Santos cita o fato de que a tradicional separação entre fumantes e não-fumantes em restaurantes, por exemplo, limita-se a um corredor ou áreas sem nenhuma barreira física. Desse modo, a fumaça dos cigarros acesos termina democratizada. O mesmo raciocínio aplica-se à criação dos fumódromos nas empresas, geralmente áreas abrangidas pelo mesmo sistema de circulação, no caso de ar condicionado central. Um contrasenso, na opinião do Cirurgião Miguel Tedde. “O ar poluído é redistribuído para todos os ambientes, ou seja, apenas o fumante é deslocado.” Na prática, ele considera seguro apenas o sistema adotado nas corporações norte- americanas: restrição total dentro da empresa. Quem quer fumar, que o faça fora do prédio.

Quando se trata de circulação do ar, o drama maior é encenado no ambiente doméstico. É lá que o fumante, já constrangido no trabalho e em outros ambientes, sente-se à vontade para espalhar fumaça, geralmente contando com a tolerância do cônjuge, filhos e outros parentes. Além de abalar a saúde dos não-fumantes, há o aspecto comportamental associado. Os estudos até hoje realizados mostram, de acordo com Ricardo Santos, que inalar a fumaça de outro cigarro não leva obrigatoriamente uma pessoa a adotar o vício. Mas a convivência com um “modelo tabagista” pode pesar. “Como uma criança de quatro anos vai dar crédito às campanhas anti-tabagistas se assiste diariamente seu herói acendendo um cigarro?”, questiona Miguel Tedde.

A fumaça passiva e a ameaça de doenças

A absorção da fumaça do cigarro em ambientes fechados com fumantes causa:

Em adultos não-fumantes
• Maior risco de doença por causa do tabagismo, proporcionalmente ao tempo de exposição à fumaça.
• Um risco 30% maior de câncer de pulmão e 24% maior de infarto do coração do que indivíduos que não se expõem.

Em crianças
• Maior freqüência de resfriados e infecções do ouvido médio.
• Risco maior de doenças respiratórias como pneumonia, bronquites e piora da asma.

Em bebês
• Um risco cinco vezes maior de morrerem subitamente sem uma causa aparente (Síndrome da Morte Súbita Infantil).
• Maior risco de doenças pulmonares até um ano de idade, proporcionalmente ao número de fumantes em casa.
Fonte: Ministério da Saúde

Em janeiro deste ano, mais um exemplo de rigor para a diminuição da fumaça do cigarro e derivados veio do estado norte-americano da Califórnia, considerado referência em regulamentação sanitária e ambiental. A Comissão de Recursos Atmosféricos da Califórnia, uma agência ambiental, aprovou a definição da fumaça de cigarros como “contaminação tóxica do ar”, uma decisão inédita nos Estados Unidos, onde a liberdade legislativa é uma prerrogativa dos estados. A expectativa da direção da maior agência de controle da poluição do ar da Califórnia é que a medida termine sendo adotada em vários outros estados.

Modelos internacionais

Um estudo feito em 2005 por essa comissão, inclusive, concluiu que 16% dos californianos fumam, mas 56% dos adultos e 64% dos adolescentes estão expostos à fumaça dos outros. E as estimativas são assustadoras: acredita- se que até 5.500 californianos não-fumantes morram anualmente por causa de doenças cardíacas associadas à exposição ao fumo e que 1.100 morram de câncer de pulmão pelo mesmo motivo. É o que explica um trecho do documento: “Uma vez que as doenças são comuns e a exposição à fumaça do tabaco é freqüente e disseminada, o impacto geral pode ser grande.”

Em matéria de proteção ao não-fumante, porém, o país considerado modelo é o Canadá. Lá, ninguém fuma em recinto fechado e pronto! Outra inovação canadense, segundo relata o Médico Sérgio Santos, consistiu em obrigar os pontos de venda de cigarro a colocarem, ao lado dos maços, as alternativas em adesivos e gomas de nicotina que dispensam prescrição médica, acompanhados das respectivas instruções de uso. “Proteger o não-fumante implica também desestimular o avanço e a manutenção do número de fumantes”, diz o Especialista.
Fonte: Revista Viva Saúde