Alcoolismo feminino deve ser tratado com cuidados específicos

Nos dias atuais, a pressão social da mulher para ser bem sucedida em todos os aspectos da vida, aliada a possíveis fatores genéticos, são alguns dos ingredientes que contribuem para a vulnerabilidade feminina para o alcoolismo. A doença, ainda hoje tratada como um assunto estigmatizado, gera conseqüências muito mais graves às mulheres do que aos homens.

Embora o índice de alcoolismo seja menor entre elas, sabe-se que o impacto na saúde física da mulher acontece com doses mais baixas do que as toleradas pelos homens. As conseqüências podem ir desde lesões no fígado até problemas ginecológicos, como menstruação ausente, abortos espontâneos e mesmo problemas com infertilidade. Além disso, são cada vez mais comuns problemas com bebês de mães alcoolistas: nessas condições, a criança tem 35% de chance de ter dificuldades no desenvolvimento físico e mental.

A saúde emocional também é profundamente afetada pela doença. A vergonha, a perplexidade e hostilidade da família diante do problema, o medo de perder a guarda dos filhos, a sensação de não ter saída e a dificuldade de pedir ajuda são motivos que colaboram para levar muitas mulheres ao suicídio. Muitas, aliás, não encontram apoio nem mesmo no companheiro, que se nega a enxergar a doença.

Panorama geral

Até algumas décadas atrás, o início e o aumento do consumo de álcool entre as mulheres era, em geral, mais tardio. Hoje, o consumo se aproxima cada vez mais do padrão masculino. O perfil atual é o de uma mulher entre 18 e 25 anos, e que bebe ou começa a beber pelas suas relações sociais ou profissionais. Outro dado importante é que o uso abusivo do álcool é geralmente em casa, de forma isolada.

O alcoolismo feminino não cresce apenas no Brasil: a incidência em outras países, como nos Estados Unidos, está praticamente equivalente à do nosso País.

Além disso, o incentivo da mídia ao consumo de bebidas alcoólicas e uma maior independência da mulher em relação a antigos costumes exclusivos para homens (como o hábito de beber) mudaram radicalmente o contexto em que se inserem as pacientes. Elas consomem mais bebida hoje porque são estimuladas e liberadas a fazer isso.

Segundo a Psicóloga Dorit Wallach Verea, Mestre em Psicologia e Especialista em Dependência Química e em Psicologia Psicossomática, não são poucos os problemas que as mulheres encontram para buscar e permanecer em tratamento. “As barreiras podem ser estruturais, como falta de creche para os filhos e ajuda legal; pessoais, como desemprego e dependência financeira; e/ou sociais, como oposição do companheiro”, afirma.

Ainda de acordo com Dorit, a prevenção e o tratamento da dependência alcoólica em mulheres deve levar em conta os fatores sociais particulares de cada paciente. “O padrão de ingestão de drogas, os aspectos socioculturais, a dinâmica familiar e as conseqüências decorrentes do abuso do álcool são fundamentais para a caracterização das diferenças de cada caso”. Ela defende que sejam desenvolvidos programas específicos para as mulheres, visando implementar estratégias particulares às necessidades do gênero feminino.

Apesar de já ser tratado com maior abertura, o alcoolismo entre as mulheres é ainda um assunto discutido com reservas. O diagnóstico desse problema na rede primária de atendimento médico é ainda deficiente e pouco valorizado. Muitos médicos, apesar das evidências clínicas, evitam tocar no assunto por “questões morais”.
Fonte: Universo da Mulher