O uso de adesivos de reposição de nicotina na cessação de fumar

No Brasil, o tabagismo é responsável por mais de 200 mil mortes por ano. Conseqüentemente, além da prevenção da iniciação do tabagismo, é indispensável que o tratamento para cessação de fumar seja um componente essencial nos cuidados da saúde pública. Pesquisas internacionais mostram que aproximadamente 80% dos fumantes querem parar de fumar; no entanto, apenas 3% destes conseguem sem qualquer tipo de apoio formal. As principais barreiras à cessação de fumar são a dependência de nicotina, os sintomas da síndrome de abstinência, a depressão e o ganho de peso. O acesso dos fumantes aos tratamentos existentes poderia aumentar as taxas de abstinência.

O método da abordagem cognitivo-comportamental é o mais utilizado no tratamento das dependências químicas em geral. As suas finalidades são informar ao fumante sobre os riscos do tabagismo e os benefícios de parar de fumar, assim como apoiar o paciente durante o processo de cessação, fornecendo orientações para que possa lidar com a síndrome de abstinência, a dependência psicológica e os condicionamentos associados ao comportamento de fumar. Pesquisas têm mostrado que o tratamento comportamental utilizado em conjunto com a farmacoterapia aumenta substancialmente o sucesso da cessação de fumar. Por exemplo, a terapia com adesivo de reposição de nicotina associada ao aconselhamento, apresenta taxas de abstinência de 80%, segundo estudos.

Embora tenha sido demonstrada efetividade positiva com o uso desse tipo de terapia em estudos internacionais, características próprias de nossa população poderiam afetar sua aplicabilidade. Nesse contexto, estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública teve como objetivo principal avaliar a efetividade do número de sessões de abordagem cognitivo-comportamental com e sem o uso concomitante de terapia de substituição da nicotina pelo adesivo NiQuitin® na cessação de fumar.

Participaram do estudo 1.199 voluntários, adultos, do Município do Rio de Janeiro, Brasil. Os sujeitos foram colocados aleatoriamente em dez grupos: aconselhamento breve (GB), aconselhamento intensivo de uma ou duas sessões (G1-G2), e de 3 ou 4 sessões (G3-G4), cada um destes divididos em com/sem terapia de reposição de nicotina com adesivos. Ambos os sexos e todos os níveis sócio-econômicos foram incluídos. A sessão de intervenção breve teve duração de vinte minutos e a intensiva, de sessenta minutos. O conteúdo das sessões foi composto pelos seguintes temas: a) por que se fuma; b) como parar de fumar; c) benefícios de não fumar e d) prevenção da recaída. Para os que receberam adesivos, foram acrescidas informações sobre o uso correto do medicamento e o seu papel no tratamento do fumante.

Dos participantes, 79% compareceram a pelo menos uma sessão de tratamento. Das 501 pessoas distribuídas aos grupos sem adesivos e que compareceram a pelo menos uma sessão, 145 (28,9%) não conseguiram deixar de fumar e requisitaram adesivos após três meses. Desses 145 participantes, 36,6% pertenciam ao grupo GB, 40,7% aos grupos G1-G2 e 22,7% aos G3-G4. De 40 a 50% dos participantes reportaram fumar mais de vinte cigarros por dia, e cerca de 2/3 tinham um grau de dependência de médio a muito elevado. De 62 a 73% dos participantes relataram tentativas anteriores para deixar de fumar. A preocupação com a possibilidade de engordar após a cessação foi manifestada por cerca de 40% dos participantes. Considerando todos os participantes do estudo, esta freqüência foi maior em mulheres (46%) do que em homens (25%). Nos participantes sem uso de adesivos, as proporções de abstinência foram mais elevadas depois de 1 e 3 meses em G3-G4 do que nos outros grupos. Aos 6 e aos 12 meses, as proporções de abstinência foram um pouco mais elevadas em GB e G3-G4 do que em G1-G2. Nos participantes que receberam adesivos, as proporções de abstinência foram consideravelmente superiores às dos grupos sem adesivos, independentemente do grupo. No entanto, estas proporções declinaram com a maior duração de acompanhamento e passaram de cerca de 60% depois de um mês a cerca de 30% depois de 12 meses. No grupo sem adesivos, a taxa não oscilou muito, mantendo-se em torno de 20% durante todo o acompanhamento.

Os resultados sugerem que acrescentar a terapia de reposição de nicotina com adesivos aumenta a proporção de abstinência na cessação. Padrões estatísticos de abstinência encontrados na pesquisa também sugerem que a abordagem cognitivo-comportamental pode ser uma opção razoável no tratamento do fumante.

Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pelos Cadernos de Saúde Pública, fev. 2006, nº. 22, vol. 2, p. 439-449. ISSN 0102-311X, Editado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2006000200021&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
Autor: OTERO, Ubirani Barros et al.
Fonte: OBID