Dependentes trocam maconha por crack – PB

Até meados de 2002, não havia praticamente registro pela polícia, na Paraíba, de apreensão de crack, droga derivada da cocaína. No entanto, nos anos seguintes as ocorrências começaram a crescer, o que aponta também do crescimento do consumo da droga. Para policiais, psicólogos e educadores, um dos fatores desse aumento se deve ao fato de que dependentes estão trocando a maconha pelo crack.

O Município de Patos, no Sertão, é um dos principais pontos de venda e consumo de crack no Estado. Levantamento feito pela Superintendência da Polícia Civil revela que foram apreendidos, nos últimos 24 meses, seis quilos de crack, cerca de seis mil pedras, que custam R$ 120 mil. No Sertão, a pedra é vendida em média a R$ 20,00 enquanto em Campina Grande e João Pessoa pode cair o preço para R$ 10,00. No mesmo período, a apreensão de maconha chegou a 80 quilos.

O Superintendente Durval Barros não tem dúvidas de que muitos dependentes estão trocando a maconha e até mesmo a cocaína pelo crack, cuja pedra é vendida ao preço de R$ 10,00 e tem um efeito imediato. Diante do aumento do consumo, a polícia também intensifica as ações de repressão ao tráfico.

A Superintendência da Polícia Federal, em João Pessoa, registrou em 2004 a apreensão de 70 quilos de maconha e 77 gramas de crack. Em 2005, foram apreendidos 300 quilos de maconha, 6 quilos e quinhentos gramas de cocaína e 1 quilo e 62 gramas de crack, o equivalente a cerca de mil e 62 pedras. Deusimar Wanderley, do Departamento de Entorpecentes da PF, comentou que a PF não mede esforço para reprimir o tráfico do crack e demais drogas, em João Pessoa e demais Municípios paraibanos.

A Delegacia da Polícia Federal, em Campina Grande, registrou em 2005 a apreensão de 118 gramas, que podem ser transformados em 118 pedras de crack. As Polícias Militar e Civil apreenderam no período mais de 100 pedras, na cidade.

Caps realiza tratamentos terapêuticos

Em Campina Grande, o Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e outras Drogas – Caps-AD, atende atualmente a 270 dependentes. Destes, cerca de 20% são dependentes de maconha, cocaína ou crack. Os consumidores desta droga são os que mais manifestam transtornos mentais e comportamentais.

A Coordenadora do Centro, a Psicóloga Alda Cristina Diniz, explica que o tratamento para os dependentes do crack consiste no atendimento individual (médico, psicológico, psiquiatra e assistente social), mas também de forma coletiva, com a participação em oficinas de artes, grupo de família, leitura e reflexão. “O nosso objetivo é desenvolver um trabalho terapêutico com o dependente para que ele seja integrado à família e a redução de danos”, explicou Alda.

Os profissionais do Caps-AD, segundo ela, tentam mostrar aos dependentes os efeitos nocivos do crack e das demais drogas. “Muitos se conscientizam e diminuem o consumo ou o abandonam, enquanto outros voltam a consumir as drogas”, comentou.

O centro não funciona, por meio de sistema de internato. Os dependentes vão pela manhã ou à tarde participar das atividades e tomar a medicação necessária (antidepressivo). “Há dependentes que ficam aqui pela manhã e à tarde vão trabalhar ou ficam com a família”, esclareceu Alda, ressaltando que os dependentes recebem o tratamento gratuitamente.

O Caps-AD, que funciona na Rua Desembargador Trindade, nº 239, no centro de Campina Grande, é vinculado à Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal. Ainda em Campina, a instituição Fazenda do Sol, ligada à Igreja Católica, dá assistência aos dependentes de crack e outras drogas. Outra instituição, Homens de Cristo, localizada na zona rural de Lagoa de Roça, também assiste aos dependentes.

Primeiro Registro

O Ex-Presidente do Conselho Municipal Antidrogas de Campina Grande, Delegado Olímpio Oliveira, revelou que o primeiro registro de apreensão de crack, no Estado, ocorreu em 2002, no Presídio do Serrotão, em Campina Grande. “Daquele ano para os dias atuais, houve sem dúvida o aumento do consumo. E como seu efeito é imediato, dezenas de jovens e infratores da Lei estão o trocando pela maconha”, discorreu Oliveira.

Como o efeito do crack é rápido, comenta Olímpio, existe uma tendência de o dependente consumi-lo várias vezes em um dia, diferente da maconha, por exemplo, que tem um efeito mais duradouro, assinala o Delegado, que já foi Superintendente de Polícia Civil, em Campina.

Para ele, a chegada do crack nos Estados nordestinos ocorreu com vinda de dependentes que moram em São Paulo. Eles vinham “passar” as férias na Paraíba, por exemplo, e traziam a droga. Depois, houve o aumento da demanda. Já no Rio de Janeiro, observa Olímpio, os traficantes não deixaram o crack entrar com facilidade nos morros e favelas.
Fonte:Jornal da Paraíba