O uso de drogas entre estudantes da área da saúde da Universidade Federal do Amazonas

O uso de substâncias psicotrópicas tem sido objeto de diversos estudos no Brasil. Muitas dessas pesquisas dão destaque para os profissionais de saúde. Isso se deve, por um lado, à sua responsabilidade na identificação e encaminhamento de pacientes com problemas relacionados ao uso de substâncias psicotrópicas e, por outro, ao fato de servirem como modelo para seus pacientes. Além disso, o fácil acesso e a fácil convivência com muitas dessas substâncias, aliados às condições de trabalho estressantes, tornariam esse grupo mais vulnerável ao abuso.

Os estudos realizados sobre o uso de drogas entre estudantes universitários no Brasil foram feitos principalmente nas regiões Sudeste e Sul do País, o mesmo ocorrendo com os estudos que enfocaram estudantes de escolas médicas. No Amazonas, o único trabalho realizado sobre o tema foi em Manaus, mas que não abordou o consumo de drogas ilícitas, tratando apenas do tabaco.

Estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública teve como objetivo descrever os universitários da área da saúde da Universidade Federal do Amazonas – UFAM quanto às características sócio-demográficas: sexo, idade e faixa etária; nível sócio-econômico; uso das drogas psicotrópicas lícitas e ilícitas; características do consumo e principais causas relacionadas a ele. O trabalho também permitiu a comparação desse grupo de universitários com outros já descritos na literatura, e fornecer subsídios aos futuros programas de prevenção voltados para os estudantes.

A pesquisa foi realizada com 521 alunos dos cursos de Farmácia, Medicina e Odontologia da Faculdade de Ciências da Saúde da UFAM, no período de 2002 a 2004. O instrumento utilizado foi um questionário padronizado, autopreenchível e não identificado, com 77 questões, que compreendiam dados sócio-demográficos, uso de drogas, e relacionamento entre os pais e os estudantes entrevistados, além da opinião destes sobre o uso das drogas.

Segundo os resultados, o “uso na vida” de álcool foi relatado por 87,7% dos estudantes e o de tabaco por 30,7%, sendo o último maior entre estudantes do sexo masculino. As substâncias ilegais mais usadas foram: solventes (11,9%), maconha (9,4%), anfetamínicos e ansiolíticos (ambos com 9,2%), cocaína (2,1%) e alucinógenos (1,2%). O principal motivo relatado para o uso de drogas ilegais foi a curiosidade. O “uso na vida” de anabolizantes foi citado por 2,1% dos estudantes. O uso abusivo de álcool nos últimos 30 dias foi relatado por 12,4% dos universitários. Entre os eventos ocorridos após a ingestão de bebidas alcoólicas, os estudantes citaram envolvimento em briga (4,7%), acidentes (2,4%), falta à escola (33,7%), falta ao trabalho (11,8%) e condução de veículos (47,3%).

A pesquisa concluiu que os dados encontrados demonstram que os estudantes da Faculdade de Ciências da Saúde da UFAM apresentam um perfil de “uso na vida” de drogas psicotrópicas semelhante aos estudantes de outras regiões do Brasil. A opinião sobre as drogas e o padrão de uso dos estudantes também não diferem muito da população em geral, o que sugere pouco impacto da abordagem sobre o tema nos currículos acadêmicos atuais, sendo necessária maior inserção do tema drogas na formação acadêmica desses profissionais. A visão unicamente médico-terapêutica deve ser substituída por uma perspectiva farmacológica, humanística e social. Assim, serão formados profissionais de saúde com maior capacidade de compreender o fenômeno do uso de drogas e atuar adequadamente na sua prevenção, diagnóstico e tratamento.

Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pelos Cadernos de Saúde Pública, mar. 2006, vol.22, nº.3, p.663-671. ISSN 0102-311X, Editado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz.
Autor: LUCAS, Ana Cyra dos Santos et al.
Fonte: OBID