Alerta para os perigos da fumaça do cigarro em ambientes fechados

A fumaça ambiental de cigarros – FAC é uma das principais causas da concentração e da exposição à partículas provenientes da queima do tabaco em ambientes fechados. É comprovado que muitos dos compostos químicos presentes na fumaça do cigarro são tóxicos ou cancerígenos e que sua inalação pode causar vários danos à saúde. Mesmo proibido por Lei, o fumo em recintos coletivos é comum no Brasil e na maioria dos casos, as áreas destinadas aos fumantes não são devidamente isoladas, prejudicando os não-fumantes. A indústria do tabaco sugere a ventilação como a solução desse problema, mas estudos indicam a baixa eficácia dessa medida.

Artigo publicado na Revista Ciência e Saúde Coletiva teve como objetivo contribuir para a prevenção dos malefícios da exposição à FAC. Pesquisas têm constatado que a inalação da fumaça do cigarro aumenta o risco de várias doenças, como pneumonia e bronquite. Preocupação especial deve ser dada à exposição de crianças à poluição, pois o uso de cigarro pelos adultos desperta a curiosidade dos jovens, sendo comum a iniciação do hábito de fumar na adolescência por meio do uso experimental.

O problema que a fumaça representa em ambientes fechados foi reconhecido em 1981, pela Sociedade Americana de Engenheiros de Aquecimento, Refrigeração e Condicionamento de Ar (American Society of Heating, Refrigerating and Air Conditioning Engineer, em inglês), que especificou maiores taxas de ventilação para as áreas onde o fumo é permitido. Embora essa Sociedade prezasse pela saúde dos ocupantes, a taxa determinada como necessária para garantir conforto em relação ao cheiro de cigarro em áreas onde o fumo é permitido é duvidosa. No Brasil, a Lei determina apenas um “arejamento conveniente”, sem maiores especificações. As implicações para com a saúde costumam ser deixadas de lado e a ventilação é vendida como a solução para o problema pela indústria do tabaco.

Exemplos da ineficácia das medidas utilizadas são estabelecimentos de entretenimento, como bares e boates, que têm grande interação entre os clientes e dificultam a ventilação e a separação entre os fumantes e não-fumantes. Além disso, estudo australiano concluiu que essa separação não é um meio de proteção eficiente para os não-fumantes, diminuindo no máximo 50% da exposição ao ambiente do cigarro. Outras pesquisas concluíram que a separação pode ser eficiente se as áreas estiverem em salas separadas por uma porta fechada ou encostada, ou se a área para fumantes possuir sistema de ventilação/exaustão próprio, causando redução de 85% a 95% na exposição. Mas esse isolamento de áreas, conforme determina a Lei brasileira não é o que se observa.

No ambiente de trabalho a situação é ainda mais complicada. Especialistas em ventilação concluíram que a técnica de ventilação por mistura de ar, a mais utilizada, não é eficiente na redução da exposição dos trabalhadores e sugeriram a adoção da técnica por deslocamento de ar, com eficiência estimada em 90%. Mesmo essa grande redução da exposição não reduz o risco, sendo necessário, além disso, um aumento expressivo nas taxas de ventilação, impraticável por questões de conforto. Isso quer dizer que as medidas que poderiam efetivamente anular o risco de exposição à FAC são inviáveis.

As implicações com a saúde e com a poluição levaram os autores a concluir que a única solução viável para o problema do fumo em ambientes fechados é sua proibição. Além disso, sendo a questão do fumo em ambientes fechados um problema de saúde coletiva, é necessária uma maior educação da população, principalmente dos jovens, a respeito dos malefícios da FAC.

Fonte:Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado na Revista Ciência e Saúde Coletiva dez. 2005, vol.10, p. 83-90. ISSN 1413-8123.