Estudo avalia perfil de homens usuários de drogas injetáveis que se relacionaram sexualmente com outros homens

O compartilhamento de seringas e outros instrumentos entre Usuários de Drogas Injetáveis – UDIs exerce um importante papel na transmissão do vírus HIV. Estudos recentes têm mostrado que a transmissão sexual também exerce um papel crucial na propagação do vírus nessa população. Além disso, em diversos países tem-se notado um reaparecimento da epidemia de HIV/AIDS e de outras Doenças Sexualmente Transmissíveis – DSTs entre os homens que fazem sexo com homens, principalmente entre os mais jovens. As mudanças nas perspectivas individuais sobre o HIV e sobre os parceiros sexuais, podem explicar esse aumento na transmissão do vírus após a era da terapia antiretroviral, baseada em uma nova percepção de que o HIV não é uma infecção fatal, mas uma condição crônica, controlável em curto e médio prazo.

As novas infecções entre HSH estão associadas também com o uso indevido de drogas, como um fator determinante ou como incentivador de práticas sexuais inseguras. Para financiar seu consumo, os usuários de drogas se submetem a relações sexuais (na maioria das vezes desprotegidas) em troca de dinheiro, drogas, ou outros bens. Nos últimos anos também foram verificadas mudanças no ambiente de uso de drogas entre a população gay. As conseqüências deste novo cenário ainda não são todas conhecidas, mas são provavelmente desfavoráveis à adoção e manutenção de práticas sexuais mais seguras, assim também como o uso mais seguro de drogas, especialmente em países com intervenções preventivas e terapêuticas limitadas nas populações com comportamentos estigmatizados e marginalizados, como a população homossexual.

Estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública avaliou o perfil de homens usuários de drogas injetáveis que se relacionaram sexualmente com homens – UDIs/HSH, com base em informações do Projeto AjUDE-Brasil II, um estudo realizado com UDIs recrutados em 2000/2001, em seis cidades brasileiras. As características dos UDIs/HSH foram comparadas às dos demais UDIs do sexo masculino.

Os resultados mostraram que, dos 709 homens UDIs, 187 (26,4%) tiveram relação homossexual na vida, e 37 (5,21%) nos seis meses anteriores à entrevista. Entre os UDIs/HSH, o desemprego nos seis últimos meses foi muito maior, assim como o uso de tranqüilizantes injetáveis e a soropositividade para o HIV, comparados aos demais UDIs. A relação HSH se mostrou associada ao financiamento para o uso de drogas: UDIs/HSH relataram mais relações sexuais ocasionais com mulheres em troca de drogas, e obtiveram mais de seus parceiros sexuais equipamentos de injeção; enquanto os UDIs heterossexuais tiveram mais freqüentemente parceiras sexuais fixas.

A pesquisa concluiu que o uso de drogas injetáveis está associado a práticas sexuais de risco e requer mais estudos com o grupo considerado particularmente vulnerável de UDIs/HSH. Apesar da importante relação entre o uso injetável de drogas e relações sexuais entre parceiros do mesmo sexo, em diferentes contextos, a pesquisa sobre o tema no Brasil é escassa ou inexistente. Isso torna necessário caracterizar o perfil de homens UDIs brasileiros que fazem ou já fizeram sexo com outros homens, a fim de orientar esforços preventivos e dar suporte às intervenções com dados experimentais consistentes.

Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pelos Cadernos de Saúde Pública, abr. 2006, vol.22, nº.4, p.849-860. ISSN 0102-311X, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz.
Autor: FERREIRA, Aline Dayrell et al.
Fonte: OBID