O tratamento do tabagismo por meio de reposição de nicotina

A terapia de reposição de nicotina – TRN, a bupropiona e a nortriptilina são as terapias farmacológicas que mais tiveram sucesso no tratamento da dependência da nicotina

A identificação da dependência de nicotina como um transtorno psiquiátrico e as crescentes descobertas de sua atuação no corpo e mente dos seres humanos, levaram ao desenvolvimento, sobretudo nas últimas duas décadas, de terapias farmacológicas para essa doença. A importância dos medicamentos no tratamento do tabagismo tem crescido progressivamente: de coadjuvantes da terapia cognitivo-comportamental (tipo de terapia que foca a atenção na forma como a pessoa se comporta e na maneira como pensa), os diferentes fármacos passaram a ter papel central na abordagem da maioria dos pacientes. Dentre os tratamentos farmacológicos, alguns merecem destaque, entre eles a reposição de nicotina, a bupropiona e a nortriptilina.

Estudo publicado na Revista de Psiquiatria Clínica revisou as terapias farmacológicas que tiveram sucesso em vários estudos no tratamento da dependência de nicotina e que hoje são usadas correntemente: a terapia de reposição de nicotina – TRN, a bupropiona e a nortriptilina, que se mostra promissora no tratamento do tabagismo em alguns estudos. As combinações de diferentes produtos para reposição de nicotina também foram consideradas.

Quanto à TRN, a nicotina é o principal componente reforçador do tabagismo, porém, o prejuízo que causa é relativamente pequeno se comparado a dezenas de outras substâncias encontradas no tabaco. Assim, justifica-se a administração da nicotina, principalmente em médio prazo, como modo de extinguir o hábito do tabagismo. Atualmente existem seis produtos para repor a nicotina: goma, adesivo transdérmico (patch), inalador, aerossol, pastilhas e comprimidos. No Brasil, só estão disponíveis a goma e os adesivos. Apesar da qualidade insatisfatória da maioria dos estudos, há uma substancial literatura a respeito da reposição de nicotina. As evidências apontam para a efetividade da TRN, seja na sua forma pura, na associação de mais de um produto ou em combinação com outras abordagens farmacológicas ou comportamentais. Resultados sem conclusão foram raros, assim como os que sugerem ineficácia. Este conjunto de evidências faz com que se recomende o uso sistemático da TRN, principalmente em pacientes que fumem dez ou mais cigarros por dia.

A bupropiona é um antidepressivo, contra-indicado em pacientes com antecedentes de epilepsia não controlada, traumatismo craniano, anorexia e bulimia. Seus efeitos colaterais mais freqüentes são náuseas, dor de cabeça e insônia. Não se sabe ao certo o mecanismo pelo qual a bupropiona age na dependência de nicotina. No entanto, a bupropiona tem mostrado resultados benéficos no tratamento do tabagismo. Foi recomendado que os estudos seguintes sejam de maior duração, na medida em que a abstinência em longo prazo constitui o objetivo principal.

A nortriptilina também atua como antidepressivo. Tem como efeitos colaterais boca seca, tremores, visão turva e sedação; não deve ser usada por pacientes com cardiopatias (infarto, arritmias, etc.), crises convulsivas e glaucoma. Apesar dos efeitos colaterais descritos, a nortriptilina pode ser vantajosa como tratamento alternativo do tabagismo, pois tem menor risco de provocar convulsões, além de ter custo menor que a bupropiona. A nortriptilina tem se mostrado promissora, mas são necessários mais estudos para a comprovação de sua utilidade no tratamento da dependência de nicotina, inclusive no que diz respeito à dose ideal desse antidepressivo.

Os autores do artigo concluíram que, nos últimos 15 anos, houve notável avanço no tratamento farmacológico do tabagismo. Hoje existem tratamentos eficazes para o tabagismo, e a maioria dos especialistas recomenda o emprego de medicamentos para todo paciente que esteja tentando parar de fumar. Mesmo assim, o aumento da efetividade e a manutenção da abstinência em longo prazo são desafios para futuros estudos em farmacoterapia da dependência de nicotina. Afinal, infelizmente, as doenças e mortes relacionadas ao tabagismo tendem a crescer nos próximos anos.
Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pela Revista de Psiquiatria Clínica, set./out. 2005, vol.32, nº.5, p.259-266. ISSN 0101-6083, Editado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Autor: FOCCHI, Guilherme Rubino de A; BRAUN, Ivan Mário.
Fonte: OBID