O alcoolismo é uma doença contagiosa?

Considerado uma doença, o alcoolismo está deixando de ser objeto privilegiado da medicina epidemiológica e psiquiátrica, e começa a fazer parte do campo de reflexões das ciências sociais. É assim que as associações de ex-bebedores, a exemplo dos Alcoólicos Anônimos – AAs, têm se revelado um espaço privilegiado para o estudo das representações e significados produzidos sobre a “doença alcoólica”.

Mas como falar de contágio a propósito do alcoolismo? Essa questão pode soar ainda mais estranha se nos ativermos à noção de contágio proposta pelas ciências médicas, que a circunscreve no âmbito biológico e fisiológico, atestado clinicamente.

Alguns autores tentam formular o que seria uma “teoria cultural do contágio”, que no contexto do alcoolismo deve partir do exemplo de uma doença não contagiosa, de um ponto de vista médico, para mostrar suas características contagiosas nas representações dos sujeitos. Ou seja, embora o alcoolismo não seja transmitido pode ser contagioso, afetando sobretudo aqueles que são mais próximos do alcoólico no ambiente familiar e de trabalho. Isso não quer dizer necessariamente que os familiares e amigos do alcoólico passarão a beber como o doente, mas que são afetados físicamente (uma depressão, por exemplo) e moralmente (podem sentir vergonha de quem bebe).

Um artigo publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva buscou refletir sobre as concepções do contágio ligadas a um contexto sociocultural específico, fora dos marcos definidos pelo modelo biomédico. O trabalho propôs uma reflexão acerca das representações sobre o álcool e o alcoolismo, entendido como uma “doença contagiosa”, formuladas por ex-bebedores membros dos Alcoólicos Anônimos e seus familiares. Com isso tentou compreender de que maneira as representações construídas pelos membros do grupo e seus familiares sinalizam para a elaboração de uma teoria cultural do “contágio” da doença alcoólica.

A pesquisa foi realizada entre setembro de 2001 e setembro de 2002, no grupo Sapopemba do AA, localizado na cidade de São Paulo, Brasil. Os membros do grupo foram entrevistados, além de terem sido observadas as diversas atividades promovidas pelos Alcoólicos Anônimos, tais como reuniões, encontros e festas. Também foram realizadas entrevistas com familiares de um membro do grupo.

Os resultados demonstraram uma maioria de homens (81 contra 5 mulheres), grande rotatividade de membros no grupo, faixa etária entre 40 e 73 anos, e um ambiente predominante de trabalhadores com baixo nível de especialização, muitas vezes em trabalhos precários, o que está ligado ao uso excessivo de álcool.

Quando indagados sobre o problema do contágio, os AAs apontaram que é na família e nas relações de trabalho que o alcoolismo se mostra “contagioso”. O contágio opera integrando a dimensão física e moral do alcoolismo, de maneira que seu vetor principal é o “odor” e, mais particularmente, o “hálito” do alcoólico, que afeta e incomoda as pessoas mais próximas. Além disso, os efeitos do “contágio moral” provocado pelo alcoolismo conduzem a agressões físicas e à violência doméstica.

O estudo concluiu que para os membros do AA e seus familiares, as possibilidades de contágio da doença alcoólica estão diretamente ligadas às representações construídas sobre o álcool e o alcoolismo, entendido como uma doença física e moral, e também aos seus efeitos sobre o conjunto de relações sociais nas quais o ex-bebedor está envolvido (familiares e profissionais).
Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pela revista Ciência e Saúde Coletiva, set./dez. 2005, vol.10, supl.0, p.267-278. ISSN 1413-8123, Editado pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232005000500027&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
Autor: CAMPOS, Edemilson Antunes de.
Fonte: OBID