O consumo de remédios ansiolíticos e relaxantes por mulheres idosas

Os benzodiazepínicos são medicamentos prescritos como sedativos, hipnóticos, ansiolíticos (remédios para controle da ansiedade), relaxantes musculares ou anticonvulsivos que surgiram na década de 1950 e em poucos anos tornaram-se um dos medicamentos mais utilizados no mundo, inclusive no Brasil. O consumo de benzodiazepínicos é controlado, mas também são vendidos ilegalmente e utilizados incorretamente.

Estudos mostram que as mulheres aposentadas e donas de casa apresentam maiores chances de fazer o uso indevido de medicamentos do que aquelas economicamente ativas. Além disso, a dependência dos benzodiazepínicos é maior nos idosos, sendo comum entre as mulheres e em pessoas com baixa escolaridade e baixa renda. Entretanto, a dependência de benzodiazepínicos nem sempre é ressaltada, existindo a não-notificação nos prontuários médicos desse tipo de dependência.

Artigo publicado na Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas – SMAD revelou as concepções de mulheres idosas sobre benzodiazepínicos e a interação de fatores biológicos, sociais e culturais envolvidos na dependência desse medicamento.

Para a pesquisa foram entrevistadas, de janeiro a março de 2004, mulheres idosas consumidoras de benzodiazepínicos há mais de um ano, pacientes psiquiátricas do Núcleo de Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. Entre todas as mulheres que freqüentavam o Núcleo de Saúde Mental foram escolhidas dezoito, pertencentes a classes sociais populares, a maioria aposentadas, donas de casa, lavadeiras de roupa e com ensino fundamental incompleto.

Os resultados mostraram que as queixas mais comuns foram depressão, ansiedade, insônia e nervosismo. Os benzodiazepínicos foram concebidos como medicamentos que fazem parar de chorar, engordam, e indicados para dor e barulho na cabeça. A iniciação do uso pôde ter sido marcada por algum acontecimento de vida, que ia perdendo importância frente ao uso prolongado. Além dos benzodiazepínicos, as pacientes faziam outros tratamentos, utilizando uma variedade de medicamentos.

Também houve relatos do uso com bebidas alcoólicas. Foi observado um grau de tolerância e dependência, uma vez que a falta dos benzodiazepínicos causou diversos sintomas como tremor, insônia e mal-estar. Dentre outros efeitos colaterais, observou-se a falta de memória. O tempo médio de uso do remédio foi de dezesseis anos, sendo que a maioria começou a tomar benzodiazepínicos entre 40 e 50 anos de idade.

O estudo concluiu que o consumo e a dependência de benzodiazepínicos não se restringem a uma relação biológica de seus efeitos, mas incluem a influência de fatores culturais e sociais. Chamou-se a atenção para a importância do acompanhamento dos pacientes, analisando melhor o tempo de uso, as interações medicamentosas, os efeitos adversos e as reais indicações desses medicamentos. Os aspectos analisados mostraram ainda a necessidade de direcionar ações e implementar políticas públicas de medicamentos, especialmente para o paciente idoso, a fim de minimizar os riscos à saúde e melhorar a qualidade de vida no envelhecimento.

Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pela Revista SMAD – Saúde Mental, Álcool e Drogas, vol.1, nº.2, Artigo 8. ISSN 1806-6976.
http://www2.eerp.usp.br/resmad/artigo_titulo.asp?rmr=56
Autor: MENDONÇA, Reginaldo Teixeira; CARVALHO, Antonio Carlos Duarte.
Fonte: OBID