Efeitos provocados pelo uso de êxtase e anestesiologia

Nos últimos anos o número de novos usuários de drogas ilícitas cresceu em todo o mundo. A maconha e a cocaína têm sido citadas com mais freqüência, porém, houve um aumento significativo do número de usuários de outros agentes psicoestimulantes ou alucinógenos, empregados com o objetivo de intensificar as experiências sociais.

Como são freqüentemente encontradas em casas noturnas, raves ou festas animadas por música eletrônica, tais drogas são denominadas de forma genérica como Club Drugs. O MDMA, também conhecido como êxtase, as metanfetaminas e o ácido lisérgico – LSD, são alguns dos principais agentes que compõem esse grupo. No Brasil, aproximadamente 0,6% da população com idade superior a 12 anos já consumiu êxtase ou outros agentes alucinógenos pelo menos uma vez durante a vida, e existem evidências de que o número de usuários cresce a cada ano.

O êxtase, derivado sintético da anfetamina, é um composto com propriedades alucinógenas e estimulantes do sistema nervoso central, utilizado por via oral, sendo comercializado como comprimido ou cápsula de diversas cores e tamanhos. Por ser um fármaco cujo consumo é ilegal, não há controle sobre a composição dos comprimidos, que podem conter uma grande variedade de substâncias.

Apesar da incerteza sobre seus componentes, estudos sobre os efeitos provocados por diferentes apresentações de MDMA parecem ter resultados similares. Provavelmente, um único mecanismo é insuficiente para explicar os efeitos induzidos pelo êxtase, o complexo espectro de atividade sobre o comportamento humano sugere que os efeitos produzidos pelo consumo desse agente podem ser resultado de múltiplos processos neuroquímicos.

Artigo publicado na Revista Brasileira de Anestesiologia revisou a literatura existente e discutiu a apresentação clínica, os efeitos deletérios e as potenciais interações com o ato anestésico no paciente cirúrgico usuário de MDMA. Os achados revelaram que a liberação de grande quantidade de serotonina (substância neurotransmissora) induzida pelo MDMA tem sido considerada por alguns autores como a responsável pelo conjunto de sintomas que incluem a hipertermia (temperatura corporal de até 42 ºC), alteração do estado mental, instabilidade dos movimentos sanguíneos, aumento do tônus muscular, insuficiências renal e cardíaca.

O uso crônico pode provocar disfunção da memória, alteração da habilidade cognitiva e do comportamento, conseqüência da lesão de neurônios no sistema nervoso central. Foram descritos casos de convulsão por provável intoxicação hídrica, resultado da ingestão abusiva de água em indivíduos com suor intenso provocado pela elevação da temperatura corporal (hipertermia) induzida peloêxtase, e agravada pela intensa atividade física durante festas animadas por música eletrônica.

O tratamento para intoxicação pela droga deve ser rápido e eficaz pois, caso não ocorra, as complicações aumentam em número e gravidade,. Inclui medidas de suporte como assistência ventilatória, administração de oxigênio, infusão de líquidos frios nos casos em que há hipertermia, entre outras. A elevação da temperatura deve ser tratada agressivamente, pois em casos não tratados pode haver sérias conseqüências.

A medicação dantrolene, geralmente utilizada no tratamento da hipertermia, não tem se mostrado eficaz no controle dos efeitos termogênicos induzidos pelo MDMA. A hidratação deve ser realizada com cautela em pacientes com suspeita de hiponatremia (teor de sódio no sangue abaixo do normal) e intoxicação hídrica.

Um agente bloqueador neuromuscular deve ser empregado nos casos em que há rigidez muscular induzida pela liberação excessiva de serotonina. A hipertensão arterial pode ser tratada com medicamentos específicos. Os remédios vasopressores devem ser evitados em pacientes usuários de êxtase mesmo quando houver hipotensão arterial.

O artigo concluiu que o uso da droga está relacionado a inúmeras reações adversas. A apresentação clínica e os efeitos deletérios provocados por esse agente, assim como as potenciais interações com o ato anestésico, devem ser parte do conhecimento do anestesiologista, pois em muitas situações os usuários desses agentes serão submetidos a intervenções cirúrgicas de emergência ou mesmo eletivas.

Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pela Revista Brasileira de Anestesiologia, mar./abr. 2006, vol.56, nº.2, p.183-188. ISSN 0034-7094, Editado pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia.
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-70942006000200010&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
Autor: MORO, Eduardo Toshiyuki; FERRAZ, Alexandre A. Fontana; MÓDOLO, Norma Sueli Pinheiro.
Fonte: OBID