Dependência química e jogo patológico estão associados

Jogo patológico pode ser definido como comportamento recorrente de apostar em jogos de azar apesar de conseqüências negativas decorrentes dessa atividade. O indivíduo perde o domínio sobre o jogo tornando-se incapaz de controlar o tempo e o dinheiro gasto, mesmo quando está perdendo. A Associação Americana de Psiquiatria – APA reconheceu o jogo patológico como transtorno de controle do impulso, incluindo-o em 1980 no Manual Diagnóstico Estatístico de Doenças Mentais – DSM-III.

Artigo publicado na Revista de Saúde Pública em abril de 2005 verificou a freqüência de jogo patológico em pacientes que procuraram tratamento para a dependência de álcool e outras drogas em serviços especializados, além de verificar associações aos sintomas de depressão e ansiedade.

Inúmeras pesquisas apontam semelhanças entre jogo patológico e dependência de drogas. A dinâmica e os fatores psicológicos que levam ao jogo patológico foram descritos como similares aos que levam ao abuso de drogas. Também é alta a relação entre pessoas que apresentam esses dois transtornos e já foi sugerido que eles têm componente genético comum. No Brasil não há pesquisas epidemiológicas indicando a prevalência de jogo na população geral.

A pesquisa contou com uma amostra de 74 farmacodependentes, que procuraram tratamento em dois serviços assistenciais públicos: o Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes – Proad, ligado ao hospital da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp; e a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas – Uniad, também ligada a Unifesp e ao grupo de Narcóticos Anônimos – NA, na cidade de São Paulo.

Duas estudantes de psicologia treinadas conduziram o experimento aplicando os questionários – individual e com duração de 20 minutos – a pacientes maiores de 18 anos que estavam em tratamento a no máximo um mês e que não estavam intoxicados no momento da entrevista. Foi utilizada uma versão traduzida e adaptada para o português da escala SOGS (sigla em inglês), usada para diagnosticar o jogo patológico, acrescida das questões sobre dados sociodemográficos: tempo de problema com o jogo; droga de abuso que motivou a procura de tratamento; idade de início e tempo de problemas associado ao uso da substância. A dependência de álcool e drogas foi avaliada segundo critérios do Diagnóstico Estatístico de Doenças Mentais – DSM-IV e questões da SADD (sigla em Inglês), utilizadas para avaliar o consumo de álcool. Uma versão adaptada da escala SRQ (sigla em Inglês que significa questionário de pesquisa individual) foi utilizada para avaliação de sintomas psiquiátricos. A escala do Núcleo de Estudos Epidemiológicos – CES-D (sigla em Inglês) sobre depressão foi empregada para detecção de sintomas de depressão.

A maioria dos farmacodependentes entrevistados era do sexo masculino (89,2%), com idade média de 29 anos, sendo 76,7% solteiros. No quesito religiosidade, 23% disseram não ter religião e 45,9% eram católicos. Quanto a execução de atividade remunerada, 52,7% estavam ativos e 36,5% estavam desempregados.

Todos os entrevistados preencheram o critério para farmacodependência, sendo 61,6% para dependência de álcool, 60,3% para cocaína/crack e 34,2% para maconha. Segundo a escala SOGS, a maioria (70,3%) foi classificada como jogador social, 10,8% como “jogador problema” e 18,9% como jogador patológico. Pacientes jogadores patológicos apresentaram mais sintomas depressivos que pacientes não jogadores patológicos.

O estudo concluiu que a freqüência de jogo patológico entre os farmacodependentes entrevistados é alta e que é importante a inclusão de estratégias de tratamento para esse tipo de transtorno nos programas de tratamento para dependentes químicos.

Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pela Revista de Saúde Pública, abr. 2005, vol. 39, n.º 2, p. 217 – 222. Editado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. ISSN 0034-8910.
http://www.scielo.br/pdf/rsp/v39n2/24045.pdf
Autor: Simone Villas Boas de Carvalho, Silvia Teresa Collakis, Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira e Dartiu Xavier da Silveira.
Fonte: OBID