Jovens prisioneiros das drogas

O menino magricelo acaba de acordar. O colega menor empurra uma garrafa de plástico dourada no nariz dele. Ele se espicha na grama, segura o gargalo como se fosse uma mamadeira e não o tira de perto da boca e do nariz. Quando os outros integrantes da turma pedem a garrafa, o menino não quer entregar. Ele não fala qual é seu nome, não responde se tem pai ou mãe, se é de Brasília ou de outra unidade da Federação, se tem casa ou se vive na rua. “Sai fora, sai fora, sai fora, sai fora”, diz, insistentemente.

Ele sente os efeitos da droga ali na região que Lucio Costa pensou como a mais nobre para a cidade inventada: na interseção entre o Eixão e o Eixo Monumental, em um grande gramado atrás da Rodoviária do Plano Piloto. Por perto, não há ninguém além de outros meninos magricelos e uma ou outra família de sem-teto. De acordo com dados da Secretaria de Ação Social, existem pelo menos 540 crianças e adolescentes vagando pelas ruas brasilienses. Destes,praticamente todos têm família aqui ou nas cidades do Entorno.

“O problema não é ter ou não ter família, é o que acontece quando ele está perto da família dele”, afirma Giuliana Hernandes Cores, Gerente de Proteção Social Especial da Secretaria de Ação Social. “Depois que vai para a rua, o menino não quer a família. E a família, muitas vezes, não quer o menino”, completa ela.

Quando a droga entra na história – 78% dos que estão na rua são dependentes químicos de acordo com levantamento da Secretaria de Ação Social e da Vara da Infância e Juventude – VIJ – , fica ainda mais difícil devolver a criança ou o adolescente à casa de onde veio. “Eles perdem completamente o referencial. É necessário trazê-los de volta à vida primeiro”, comenta Giuliana, acrescentando que o Estado e a sociedade têm falhado nesta tarefa. “Há uma geração de adultos que cresceu nas ruas e até hoje continua nelas. Não conseguimos resgatá-los, incluí-los entre nós”, afirma.

No ano passado, a Secretaria de Ação Social fez 4.149 abordagens nas ruas de Brasília. Por ordem de freqüência, as crianças e adolescentes foram encontradas trabalhando (24,7%), consumindo drogas (22,8%), perambulando sem destino (21,5%), pedindo dinheiro (16,5%) ou dormindo em parques e calçadas (14,5%). Uma criança pode ter sido abordada mais de uma vez.

Resgate

De acordo com o diagnóstico do Ministério Público do Distrito Federal sobre o sistema de Justiça Infanto-Juvenil do DF, uma das medidas que devem ser adotadas para tirar parte destas crianças e adolescentes das ruas encontra-se absolutamente negligenciada. Trata-se de oferecer tratamento aos usuários de drogas. Segundo o estudo do Ministério Público, as instituições que trabalham com dependentes químicos são particulares ou assistenciais. Não existe nenhuma mantida pelo governo. “O Estatuto da Criança e do Adolescente garante o direito a tratamento especializado”, cobra a Promotora Fabiana de Assis Pinheiro, da Promotoria da Infância e Juventude. “É fundamental que isto seja modificado”, completa.

A Secretaria de Saúde reconhece o problema e promete uma solução até outubro. Segundo o chefe da Coordenadoria de Saúde Mental, André Luiz Andrade de Abrahão, o governo prepara a inauguração do primeiro Centro de Apoio Psicossocial – Caps – exclusivo para o tratamento de crianças e adolescentes que sofrem com a dependência química.

O lugar funcionará em Samambaia e prevê o atendimento de 45 pacientes por turno, em um esquema parecido com o dos hospitais-dia. Também haverá espaço para internações curtas de até oito dias. “Nossa idéia é que eles passem ou a manhã ou a tarde conosco e que sejam atendidos por uma equipe multidisciplinar”, explica Abrahão. Ele próprio, contudo, reconhece que as vagas serão poucas para atender a demanda. “É um pequeno passo que estamos dando, mas planejamos transformar este lugar em um centro de capacitação para outros profissionais”, explica Abrahã.

Depoimento

“Já roubei pelo vício. Eu morava em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, com a minha mãe e o meu padrasto. Um dia, depois de uma briga, ele deu uma coronhada com um berro (revólver) na minha cabeça. Depois deste dia, eu vim para cá, vim para a rua mesmo. Da minha família, só tem um tio aqui em Brasília. Na rua, eu comecei a fumar bagulho (maconha), a cheirar tíner (solvente). Também provei maryloo (merla). Na rua, você encontra de tudo. Não precisa nem procurar que alguém vem e te oferece droga. É a coisa mais comum do mundo. Eu não me considero dependente. Quer dizer, sou dependente de cigarro. Quando a pessoa é dependente de alguma droga, ela faz qualquer coisa para manter esta dependência. Não vou mentir, eu já roubei porque precisava de droga. Hoje, não faço mais isso, porque tenho medo de morrer. Desde que vim para Brasília, a única notícia que mandei para o meu padrasto foi que eu comprei um berro igual dele. Tirei uma foto com o revólver e escrevi assim: te cuida, agora eu tenho o meu”. Willy (nome fictício), 17 anos, é guardador de carros na Asa Norte.

Necessidade de tratamento especializado

As instituições que trabalham no atendimento a crianças e adolescentes em situação de risco também consideram fundamental a criação de uma unidade pública especializada no tratamento da dependência química. Segundo Eliena de Barros, da ONG Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua, é comum que os jovens que estão na rua não se adaptem ao esquema religião, disciplina e isolamento que costuma ser adotado na maioria dos centros de tratamento ligados à igrejas. “Mas qualquer
Caminho é melhor que ficar na rua à mercê das drogas”.

Giuliana Hernandes Cores, da Secretaria de Estado e Ação Social, diz que para retirar as crianças que estão nas ruas e evitar que elas sejam tomadas por outros é necessário um conjunto de ações. “Eles precisam de uma rede de proteção, esta é a filosofia do Estatuto da Criança e do Adolescente. Se um dos pontos não está funcionando bem, os outros ficam prejudicados”.

No cotidiano de Giuliana, a falta de um centro de tratamento público implica em que crianças e adolescentes que tenham sido convencidos a ir para casa, voltem a usar drogas e sejam, por fim, expulsos da família. “Se não dermos a opção de tratamento, fica muito difícil convencer a família a aceitá-los”, pondera.

Especialista no atendimento a usuários de drogas, o Psiquiatra e psicanalista José Roberto Gabriel destaca a importância de um tratamento multidisciplinar: “A dependência química tem diferentes causas e conseqüências, então não é possível tratá-la de uma única forma. É um problema de saúde, mas também tem circunstâncias psicológicas e sociais. Para resgatar uma pessoa, é necessário cuidá-la de diferentes formas”.

José Roberto Gabriel destaca a proposta do Centro de Apoio Psicossocial – Caps – que não prevê a internação por longos períodos. “Se uma coisa temos como certa, é que o confinamento possui baixa efetividade. Um caminho como este em que a pessoa continua no convívio da sociedade é o melhor possível”, afirma, ponderando que, em alguns casos, a internação é realmente necessária.(EM)
Fonte: Samanta Sallum / Ana Paixão, Roberto Fonseca, Valéria Velasco/ Érica Montenegro – Correio Braziliense