O uso de drogas lícitas e ilícitas por dançarinos

Se o livro de Kirland é um grande testemunho de uma era de excessos ou simplesmente a fotografia do mundo brilhante porém atribulado de uma artista, o abuso de drogas se tornou cada vez mais raro na dança americana. O livro mostra um clima de negação quanto à anorexia, bulimia e abuso de substâncias para alguém que valorizava práticas de saúde holísticas.

Quando Linda Hamilton, uma Psicóloga e Consultora de Saúde do Balé da Cidade de Nova York, que se apresentou junto com a companhia de 1969 a 1988, começou a escrever uma coluna dando conselhos na Dance Magazine há 15 anos, a questões giravam em torno de perder 5 ou 6 quilos de qualquer maneira possível. Hoje, afirma ela, as dançarinas são muito mais conscientes das conseqüências de um comportamento não-saudável.

Na dança americana um novo tipo de ginástica se unificou ao talento artístico no palco central. Ao mesmo tempo, a medicina das artes performáticas tem amadurecido, e seus praticantes agora reconhecem os dançarinos não apenas como artistas criativos mas também como uma classe mundial de atletas cuja forma de arte parece exigir desafios cada vez maiores a cada temporada. Mas como os dançarinos pulam cada vez mais alto, fazem giros cada vez mais rápidos e tentam se manter impossivelmente magros? Será que eles, como os astros do baseball e velocistas olímpicos, são suscetíveis ao uso de drogas? Drogas que aumentam a performance, não mais apenas no reino dos homens musculosos, podem também ter apelo para os dançarinos: especialmente estimulantes, diuréticos, anfetaminas, esteróides, anabolizantes, hormônios e narcóticos utilizados para dar energia, controlar o peso, fortalecer os músculos e amenizar eventuais dores.

“Eu não sei de nenhum dado atual evidenciando o uso de esteróides, anabolizantes e outras drogas que melhoram a performance por dançarinos profissionais”, afirmou Gary Wadler, um especialista nessas drogas da Escola de Medicina da Universidade de Nova York e autor Drogas e o Atleta (F.A Davis Co., 1989). “Mas no clima atual do uso de drogas, você nunca pode descartar totalmente a possibilidade, seja com drogas que aumentam a performance ou com drogas de uso social”.

Mas o que define uma droga que aumenta a performance? O ibuprofeno e os beta-bloqueadores, por exemplo, permitem que os usuários consigam atingir o ápice de seu potencial natural ao remover sintomas que possam incapacitar o processo. Será que há uma divisão clara entre a capacitação da performance e a melhoria dela?

Ambos atletas e dançarinos são levados pelo desejo da excelência. Mas eles podem ter motivações diferentes para utilizar as substâncias que melhoram a performance.

Para os atletas a possibilidade de contratos lucrativos e patrocínios poderiam aumentar uma disposição a arriscar a saúde por recordes mundiais. Mesmo em esportes mais obscuros como curling (esporte de precisão similar a bocha) ou caiaque, os atletas podem dar tudo de si para alcançar o último prêmio de uma vida inteira de dedicação. Os dançarinos, por outro lado, com poucas medidas quantitativas de sucesso, tendem a focalizar na longevidade da carreira (se este é o termo correto para carreiras que normalmente são curtas) ao invés de arriscarem tudo por um momento de glória. Eles ganham modestamente, e as oportunidades de patrocínios são raras.

E apesar de as bailarinas utilizarem a mesma força e energia necessária para o beisebol ou para a corrida, o componente estético de suas performances exige flexibilidade, magreza, e graciosidade que são inconsistentes com o uso de esteróides anabolizantes que tende a aumentar o peso e a massa corpórea.

Drogas lícitas, usadas apropriadamente, são logicamente uma outra questão – e uma necessidade. As companhias de balé profissional relatam uma porcentagem anual de ferimentos de 65 a 95% das bailarinas, de acordo com um estudo de cinco anos publicado em 2003 no American Journal of Sports Medicine.

Ferimentos na parte inferior do corpo são comuns tanto no balé como na dança contemporânea, de acordo com Shaw Bronner, um Fisioterapeuta que trabalha com a companhia Alvin Ailey American Dance Theater. As bailarinas encontram problemas relacionados a dançar na ponta dos pés, incluindo fraturas de pressão, unhas encravadas e bolhas constantes.

Muitas delas escondem os ferimentos para se proteger dentro de uma carreira em que a união fecha contratos mas não oferece garantias contra adversidades artísticas ou decisões de elenco. Devido a ferimentos na dança tenderem a ser crônicos, os dançarinos temem ser postos de lado, por isso alguns podem se apoiar fortemente em medicamentos e drogas conseguidas sem receita.

“Os dançarinos aprendem a serem indiferentes desde cedo, e normalmente continuam dançando pois eles pensam que ferimentos são um sinal de fraqueza”, afirmou Hamilton.

Medicamentos comuns incluem não-esteróides, medicamentos antiinflamatórios sem-receita como o ibuprofeno e a aspirina, que permitem que dançarinos machucados consigam se apresentar. Mas essas drogas podem criar uma série de efeito colaterais gástricos e prejudicar a performance devido a tonturas, dores de cabeça e sonolência.

O controle de peso é uma questão que os dançarinos dividem com ginastas, patinadores artísticos, maratonistas e mergulhadores, que se esforçam para manter corpos magros e flexíveis. Desde que o fundador do Balé da Cidade de Nova York George Balanchine descreveu o quer seria o físico ideal, alguns que não nasceram com o tronco estreito, pernas longas e braços delicados tentaram compensar com a magreza excessiva, usando pílulas para dieta e diuréticos ou induzindo o vômito para perder peso.

Em 1997, o membro do corpo de balé do Boston Ballet, Heidi Guenther, morreu após se esforçar para emagrecer ainda mais. Na época, ele tinha 22 anos e pesava 42 quilos Batimentos cardíacos irregulares, que podem resultar de uma anorexia nervosa. Foi a suspeita da causa da morte apesar de um relatório de autópsia inconclusivo.

“O caso de Guenther foi um alerta para todos”, afirmou Hamilton. As companhias de balé, acrescentou, desde então colocaram as desordens alimentares em primeiro lugar na lista de prioridades e reduziram a incidência dessas doenças por meio de aconselhamentos, guias nutricionais e intervenções médicas.

A ansiedade pré-apresentação é um outro problema que os dançarinos dividem com os atletas. Dos 960 dançarinos que responderam a uma pesquisa em 1997 da Dance Magazine, 40% afirmaram sofrer de medo do palco. Mas alguns dançarinos e atletas relataram que níveis moderados de nervosismo auxiliavam nas apresentações.

Músicos clássicos, e pessoas que falam em público por vezes fazem uso dos beta-bloqueadores, um tipo de medicamento cardíaco que limita a quantidade de substâncias como a adrenalina no sangue, para combater os sintomas físicos do medo do palco: tremedeira, falta de ar e tensão muscular. Porém, os dançarinos os evitam. “Para os atletas, os beta-bloqueadores possuem efeitos opostos”, afirmou Donald J. Rose, Diretor e Fundador do Harkness Center for Dance Injuries em Manhattan. As drogas reduzem principalmente a força.

Assim como para drogas recreativas como a cocaína, os estudos não mostram aumentos na performance atlética com o seu uso além de muitos riscos, inclusive derrames cerebrais, convulsões ou até mesmo morte repentina. Os dançarinos afirmam que a cocaína praticamente desapareceu do mundo da dança, apesar de alguns fazerem uso dela nos dias de folga. “Eu fico com os dançarinos diversos dias por semana”, afirmou o Dr. Richard Gibbs, Médico do Balé de São Francisco, “e eu nunca vi qualquer comportamento, olhos vidrados, pupilas dilatas ou outros sinais físicos de uso de drogas”.

O álcool também está fora do cardápio, dado que ele prejudica as habilidades motoras, o equilíbrio e a energia, até mesmo no dia seguinte. O cigarro, outrora popular por suprimir o apetite, está cada vez mais raro. Porém, a cafeína pode trazer alguns benefícios; a pesquisa mostra que baixas doses aumentam significativamente o vigor de um atleta.

“Eu gostaria de ter histórias enérgicas para você”, disse Linnette Roe, que afirmou ter visto pouco abuso de substâncias quando ela dançou com o Pacific Northwest Ballet de 1987 a 1999. “Mas a substância para melhorar a performance nº 1 é o café”.
Fonte: Portal Último Segundo