Drogas: dependência é doença

Durante muitos anos e na maioria dos povos e culturas o uso abusivo de álcool e de outras drogas foi considerado falha de caráter. Essa idéia dificultava muito o tratamento dos doentes, uma vez que a dependência química não era vista como problema de saúde. Nem todos os usuários de drogas se tornam dependentes. Alguns seguem consumindo de vez em quando, enquanto outros não conseguem se controlar, usando a droga de forma indevida e abusiva.

Ainda não se conhecem todas as causas da dependência e por isso não dá para saber, entre as pessoas que começam a usar drogas, quais serão usuários ocasionais e quais se tornarão dependentes. Sabe-se que a pessoa se torna dependente possivelmente devido a uma memória que a droga cria no cérebro, ligada a situações emocionais e ambientais – familiares, sociais. Nessas situações, através de mecanismos desconhecidos, o indivíduo sente necessidade da droga.

Também uma maior predisposição biológica, que faz com que as drogas causem efeitos diferentes sobre o cérebro de cada usuário, tornando uns mais propensos à dependência que outros, pode explicar, em parte, o uso abusivo. Há ainda a predisposição genética. Sabe-se, por exemplo, que a incidência de alcoolismo em filhos de pais alcoólatras é de três a quatro vezes maior do que entre os filhos de não dependentes.

Transtorno mental do comportamento

Na Classificação Internacional das Doenças – CID, a dependência de álcool e de todas as substâncias psicoativas está na categoria “transtornos mentais de comportamento”, sendo considerada uma doença crônica e recidivante – o doente tem recaídas, caracterizada pela busca e consumo compulsivo de drogas.

Segundo o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas – OBID, 60% das pessoas que usam drogas de forma abusiva não se tornarão dependentes; 20% delas voltarão a usar, mas sem dependência; e 20% progredirão para um quadro de dependência. A síndrome de dependência é definida na CID como um estado físico e mental que inclui mudanças de comportamento e compulsão por ingerir droga, seja para experimentar seus efeitos ou para evitar o desconforto causado pela falta da substância.

Para o dependente, o uso da droga passa a ter importância muito maior do que aquilo que antes era prioridade ou fundamental na sua vida. É aquela fase em que a alegria e a excitação de quem está experimentando é substituída pela necessidade de ingerir e pelo sofrimento pela falta da droga. Aos poucos o dependente vai deixando de trabalhar, estudar, sair, rejeitando interesses e atividades que antes eram o centro da sua vida, e vai se afastando da família. A vida dele passa a girar em torno de conseguir dinheiro para comprar, encontrar um lugar para usar e depois dormir para se recuperar e no dia seguinte começar tudo de novo.

As difíceis primeiras horas da abstinência: Sempre que o dependente deixa de usar a droga, ele está sujeito a uma seqüência de sintomas chamada de síndrome de abstinência narcótica:

As primeiras quatro horas: ansiedade e comportamento de procura da droga.

As primeiras oito horas: ansiedade, procura da droga, lacrimejamento, coriza intensa, bocejos freqüentes, suor excessivo, prostração, fraqueza.

As primeiras 12 horas: ansiedade, procura da droga, lacrimejamento, coriza intensa, bocejos freqüentes, suor excessivo, prostração, fraqueza, dilatação das pupilas, tremores musculares, ondas de frio, ondas de calor, ereção dos pêlos cutâneos, dores nos ossos e músculos.

Entre 18 e 24 horas: ansiedade, procura da droga, lacrimejamento, coriza intensa, bocejos freqüentes, suor excessivo, prostração, fraqueza, dilatação das pupilas, tremores musculares, ondas de frio, ondas de calor, ereção dos pêlos cutâneos, dores nos ossos e músculos, insônia, náusea, vômito, muita inquietação, respiração e pulso acelerados, respiração profunda, aumento da pressão arterial, febre, dor abdominal.

Entre 24 e 36 horas: ansiedade, procura da droga, lacrimejamento, coriza intensa, bocejos freqüentes, suor excessivo, prostração, fraqueza, dilatação das pupilas, tremores musculares, ondas de frio, ondas de calor, ereção dos pêlos cutâneos, dores nos ossos e músculos, insônia, náusea, vômito, muita inquietação, respiração e pulso acelerados, respiração profunda, aumento da pressão arterial, febre, dor abdominal, diarréia, ejaculação/orgasmo espontâneos, perda de peso, desidratação.
Fonte: Jornal do Senado