Singularidades de mulheres dependentes de substâncias psicoativas que sofrem de transtornos alimentares

A associação entre transtornos alimentares e dependência de substâncias psicoativas em mulheres é caracterizada por acometer um grupo com características heterogêneas o que acarretaria respostas diferentes ao tratamento, por existir uma maior severidade nos distúrbios psiquiátricos e clínicos das mesmas e pela pouca ênfase da influência de tal associação no tratamento.

Artigo publicado pela Revista de Psiquiatria Clínica em julho de 2006 teve como objetivo explorar as singularidades de mulheres dependentes de substâncias psicoativas que sofrem de transtornos alimentares visando o aprofundamento dos dados já existentes e a busca por parâmetros brasileiros para o problema.

A população de estudo foi constituída por 80 mulheres triadas de acordo com os seguintes critérios: ter idade igual ou superior a 18 anos, ter residência fixa na grande São Paulo e diagnóstico de dependência de substâncias psicoativas, segundo o Diagnóstico Estatístico de Doenças Mentais – DSM-IV, mas que não tivessem comprometimento clínico e psiquiátrico severo e que se mantivessem abstinentes.

O presente estudo foi realizado no Programa de Atenção à Mulher Dependente Química – Promud, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com mulheres que procuraram o Promud no período de março de 1999 a outubro de 2003.

O Promud é um programa criado em novembro de 1996, resultante de pesquisas, tanto brasileiras quanto internacionais, que apontavam que programas de tratamento exclusivos para mulheres dependentes de drogas que atendessem especificamente às suas particularidades apresentavam resultados mais eficazes.

A amostra foi avaliada por meio do Protocolo Comum – questionário desenvolvido pelo Sistema de Informações sobre Dependentes de Drogas em Tratamento – SIDET, utilizado na padronização da coleta de dados sociodemográficos, relativos ao uso de substâncias psicoativas e sobre o comportamento sexual. Foi utilizada também a Entrevista Clínica Estruturada para o DSM-IV e o Addiction Severity Index – ASI na versão em português. Todos os procedimentos foram aplicados de acordo com o critério de permanência de no mínimo 15 dias em abstinência de álcool e outras substâncias.

Os resultados evidenciaram que 33,75% tinham transtornos alimentares presentes. Destas, 40,8% foram diagnosticadas como transtorno da compulsão alimentar periódica, 29,6% tinham bulimia nervosa, 22,2% tinham transtornos alimentares sem outra especificação e 7,4% anorexia nervosa. Para efetuar a comparação, as 80 pacientes foram divididas em dois grupos: com transtornos alimentares e sem transtornos alimentares; os resultados evidenciaram que o primeiro grupo teve problemas com drogas em idade precoce, era significativamente mais jovem e que o consumo ocorria de forma mais severa em relação ao segundo grupo.

A pesquisa concluiu que uma avaliação detalhada dos transtornos alimentares de pacientes dependentes de drogas que buscam tratamento é imprescindível para um diagnóstico preciso e para a elaboração de abordagens terapêuticas efetivas gerando impacto sobre a evolução das pacientes. Enfatiza a alta prevalência de transtornos alimentares não formais ou não específicos, assim como as diferenças encontradas nos dois grupos de pesquisa e a alta comorbidade entre a dependência e os transtornos.

Ressalta que a maior contribuição do estudo é evidenciar a necessidade de elaboração de estratégias de tratamento diferenciadas que devem abordar a população de estudo, por não ser constituída por um subgrupo com características homogêneas o que pode estar relacionado a respostas diferentes ao tratamento. Tendo como meta que tais especificidades corroborem e aumentem a eficácia das abordagens propostas.
Texto elaborado pelo OBID a partir do original publicado pela Revista de Psiquiatria Clínica, v. 33, nº.3, p. 134-144. 2006. ISSN 0101-6083, editada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832006000300003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
Autor: TAQUETTE, Stella R., VILHENA, Marília Mello de e PAULA, Mariana Campos de.
Fonte: OBID