Efeitos dos esteróides sobre o humor e a cognição


Estudos experimentais e observacionais sugerem que os esteróides sexuais apresentam uma série de efeitos sobre o cérebro e que, potencialmente, afetam a cognição e o humor.

Os efeitos dos esteróides sobre o envelhecimento do cérebro, as funções cognitivas e as desordens neuropsiquiátricas constituem hoje um tema de alto interesse para a saúde coletiva e ainda não foram muito bem entendidos. Processos mentais como atenção, percepção, memória, execução de tarefas, noção espacial, linguagem e aprendizado compõem a chamada função cognitiva.

Durante o processo de envelhecimento ocorre piora da mesma, cerca de 60% das mulheres no período perimenopáusico (fase de transição que marca o fim da vida reprodutiva feminina, caracterizada por mudanças endócrinas, biológicas e clínicas, relacionadas com alterações hormonais e pela aproximação da última menstruação) apresentam piora da memória, com dificuldades em lembrar palavras, números, esquecer eventos e atos praticados com dificuldade de concentração. O uso dos estrogênios na peri e pós-menopausa está associado à melhora da concentração, humor, memória e sono.

Artigo publicado pela Revista de Psiquiatria Clínica em 2006 investigou os efeitos dos esteróides sexuais sobre o humor e a cognição. O estudo é caracterizado por ser uma revisão da literatura sobre o tema e foi estruturado a partir de três tipos de estudos: experimentais, observacionais e epidemiológicos, e controlados e randomizados.

Os esteróides sexuais ou hormônios sexuais humanos e seus análogos – usados por exemplo em pílulas anticoncepcionais e anabolizantes, que exercem importantes funções bioquímicas nos organismos – são produzidos a partir do colesterol e podem ser classificados em três grupos principais: hormônios sexuais femininos, os estrógenos, hormônios sexuais masculinos, os andrógenos e hormônios da gravidez, os progestógenos.

Efeitos ativadores sobre o humor e a memória, acompanhados da sensação de euforia e ansiedade, podem ser encontrados em mulheres que possuem uma elevação do nível de estrogênios circulantes. O declínio de estrogênio relaciona-se com baixa do humor, enquanto a terapia estrogênica associa-se com melhoria do bem-estar e redução nos índices de depressão. Já a progesterona atua de modo inverso ao estrogênio, diminuindo o nível de serotonina (neurotransmissor) possuindo um efeito depressivo. Apresenta também propriedades anestésicas, tranqüilizantes, estabiliza o humor, reduz as atividades mentais e possui ação anticonvulsivante. Os androgênios parecem ter funções na diferenciação sexual do sistema nervoso central, no período embrionário, e atuam na conduta sexual masculina e agressividade.

Segundo os pesquisadores, os ensaios experimentais evidenciaram que a identificação do cérebro como uma fonte de esteróides e a presença de receptores para esses hormônios em diferentes áreas estratégicas do cérebro, sugerem pontualmente que os mesmos influenciam nas modificações do humor e cognição além das evidências que diferenciam essas ações entre os gêneros. Acerca dos estudos observacionais e epidemiológicos, a referência é demonstrada na crucialidade que os esteróides sexuais exercem nos processos de desenvolvimento e envelhecimento de regiões do cérebro afetadas na doença de Alzheimer e que afetam as regiões controladoras do humor e da cognição.

Entre as pesquisas controladas e randomizadas, os resultados divergiram em relação aos explicitados anteriormente. Os dados mostraram que a associação de estrogênios mais progestagênios utilizados em mulheres na pós-menopausa não só falhou em melhorar a memória, cognição e qualidade de vida, mas também aumentou o risco de demência, portanto contradisse os estudos observacionais e experimentais.

A pesquisa concluiu que os estrogênios possuem efeitos protetores sobre os neurônios e os neurotransmissores (substâncias liberadas por célula nervosa, que transmite a outra célula, de nervo ou músculo, um impulso nervoso). Ressalta que apesar das intensas pesquisas, a comprovação do papel dos esteróides sexuais no tratamento clínico e prevenção das desordens neuropsiquiátricas não está bem estabelecida. Destacam o Estudo Internacional da Longa Duração do Estrogênio após a Menopausa em Mulheres (Women’s International Study of Long Duration Osetrogen after Menopause – WHISDOM-COG) – que deverá ser finalizado em 2006 – que proporcionará informações vitais sobre os efeitos da terapia de reposição hormonal sobre a cognição e o envelhecimento.

Destacam também que diversos estudos têm demonstrado que a terapia estrogênica – TE ou estro progestativa – TH pode proteger contra a piora da cognição. As usuárias desses hormônios têm desempenho melhor do que as não-usuárias e alguns dados sugerem também a influência dos estrogênios no retardo do início da doença de Alzheimer.

Texto resumido pelo OBID a partir do original publicado pela Revista de psiquiatria clínica, v. 33, nº.2, p. 60-67. 2006. ISSN 0101-6083, editada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Autores: SILVA, Ana Carolina J. S. Rosa e SÁ, Marcos Felipe Silva de.
Fonte: OBID