Riscos do uso de álcool na adolescência

Pesquisas mostram que o álcool é a bebida de maior consumo na adolescência, sendo consumida cada vez mais cedo

O álcool é a substância psicoativa mais consumida precocemente pelos adolescentes, sendo que a idade de início do uso tem sido cada vez menor, o que aumenta o risco de dependência, problemas no desenvolvimento e no futuro. Aumenta também as chances de envolvimento em acidentes, violência sexual e participação em gangues. Estudos mostram que o álcool na adolescência está associado com mortes violentas, queda no desempenho escolar, dificuldades de aprendizagem e prejuízo no desenvolvimento.

Os danos causados pelo uso de álcool ao adolescente são diferentes daqueles causados nos adultos, seja por questões existenciais desta etapa da vida, seja por questões relacionadas ao amadurecimento do cérebro. O consumo de álcool pode trazer prejuízos para a memória, dificultar a aprendizagem e o controle de impulsos. Os profissionais que trabalham com adolescentes devem ter um preparo para avaliar corretamente o possível uso abusivo ou a dependência, conhecendo bem as características singulares dos adolescentes para que possam adaptar os instrumentos disponíveis para diagnóstico, uma vez que foram desenvolvidos para adultos.

O artigo publicado pela Revista Brasileira de Psiquiatria descreveu aspectos sociais associados ao consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes, visando orientar o profissional não especialista no trabalho com essas difíceis questões e alertar para as conseqüências do uso do álcool nessa idade, bem como os prejuízos no futuro. Os autores também citam dados onde o uso na vida de drogas psicotrópicas entre jovens de 12 a 17 anos é de 48,3% em 107 grandes cidades brasileiras, sendo o maior no índice de uso na vida de álcool na região Sul, 54,5%.

Pinsky e Silva, estudando comerciais de bebidas alcoólicas, demonstraram que a freqüência destes era, em média, maior do que a freqüência de comerciais sobre outros produtos, como bebidas não alcoólicas, medicamentos ou cigarros. Dos cinco temas mais freqüentemente encontrados nesses comerciais, três deles (como relaxamento, camaradagem e humor) eram diretamente relacionáveis às expectativas dos jovens. Para uma mente tipicamente sugestionável como a de um adolescente, a prática de propagandas que estimulam o uso de bebidas alcoólicas, apoiadas na posição da sociedade e a falta de firmeza no cumprimento de leis, é um caldo de cultura ideal para a experimentação tanto de drogas como de álcool, contribuindo para a precocidade da exposição de jovens ao consumo abusivo.

Álcool na adolescência é um tema bastante controverso, pois a Lei brasileira proíbe a venda de bebida alcoólica a menores de 18 anos, embora muitos jovens façam uso em casa, em festas e às vezes até em ambientes públicos. A sociedade age de forma diferente frente a esse problema, onde por um lado condena o abuso de álcool, mas por outro aceita propagandas que estimulam o uso.

O adolescente gosta de desafio e de burlar regras, acredita estar protegido mesmo envolvendo-se em situações de risco que podem ter conseqüências graves. Mesmo sem um diagnóstico de abuso ou dependência de álcool, pode se prejudicar com o seu consumo, à medida que se habitua a passar por uma série de situações apenas sob efeito de álcool. Vários adolescentes costumam, por exemplo, associar o lazer ao consumo de álcool, ou só conseguem tomar iniciativas em experiências afetivas e sexuais se beberem.

O artigo procurou demonstrar que o consumo de álcool por adolescentes tem elementos controversos que dificultam a compreensão do problema. Apesar de trazer claras conseqüências orgânicas, comportamentais e na estrutura de desenvolvimento da personalidade do jovem, o uso de álcool nesta faixa etária ainda é combatido e valorizado, dependendo do ângulo em que o fenômeno é observado: para a mídia, o consumo de álcool é favorecido. Para a lei e para os programas de saúde pública, ele é combatido.

No meio deste embate está o jovem com a personalidade em formação, navegando entre correntes opostas. Entretanto, independentemente das forças em questão, um ponto é inquestionável em relação ao consumo de álcool por adolescentes: quanto mais precoce o início de uso, maior o risco de surgirem conseqüências graves, cabendo aos profissionais que lidam com jovens alertá-los para esses riscos.

Texto resumido pelo OBID a partir do original publicado pela Revista Brasileira de Psiquiatria 26 (I) pág.14-17; 2004, editado pela Associação Brasileira de Psicologia.
Autores: PECHANSKY, Flavio; SZOBOT, Claudia Maciel; SCIVOLETTO, Sandra.
Fonte: OBID