Jovens e mulheres na mira da indústria do tabaco

A promoção e o marketing de produtos derivados do tabaco junto ao público jovem são essenciais para que a indústria do fumo consiga manter e expandir suas vendas. O tabaco é a segunda droga mais consumida entre os jovens no mundo e no Brasil, e isso se deve às facilidades e estímulos para obtenção do produto, entre eles o baixo custo. A isto somam-se a promoção e a publicidade que associam o tabaco às imagens de beleza, sucesso, liberdade, poder, inteligência e outros atributos desejados especialmente pelos jovens.

A divulgação dessas idéias ao longo dos anos tornou o hábito de fumar um comportamento socialmente aceitável e até positivo. A prova disso é que 90% dos fumantes começam a fumar antes dos 19 anos de idade. Seduzir os jovens faz parte de uma estratégia adotada por todas as companhias de tabaco visando reabastecer as fileiras daqueles que deixam de fumar ou morrem por outros consumidores que serão aqueles regulares de amanhã.

Nos arquivos secretos oriundos de documentos internos de grandes empresas transnacionais do tabaco, finalmente revelados durante uma ação judicial movida contra elas por estados norte-americanos, crianças e jovens são descritos como “reservas de reabastecimento” e um dos principais alvos estratégicos, devendo se tornar dependentes do cigarro ainda cedo. Além disso, os documentos comprovam que, apesar de a indústria do tabaco se posicionar publicamente de uma forma, suas verdadeiras intenções são completamente opostas. Veja alguns exemplos:

“Eles representam o negócio de cigarros amanhã. À medida que o grupo etário de 14 a 24 anos amadurece, ele se tornará a parte chave do volume total de cigarros, no mínimo pelos próximos 25 anos.”
J. W. Hind, R.J. Reynolds Tobacco, internal memorandum, 23 de janeiro de 1975

“Atingir o jovem pode ser mais eficiente, mesmo que o custo para atingi-los seja maior, porque eles estão desejando experimentar, têm mais influência sobre os outros da sua idade do que eles terão mais tarde e porque são muito mais leais à sua primeira marca.”
Escrito por um executivo da Philip Morris em 1957

Após a divulgação desses documentos e principalmente dos recentes avanços alcançados pela saúde pública no controle do tabagismo, a indústria do cigarro passou a adotar um discurso conciliador visando reconstruir sua imagem. Essa nova estratégia inclui o reconhecimento, em parte, dos riscos associados com o tabagismo, o desejo de diálogo, a abertura para regulamentações “racionais” e o envolvimento com projetos sociais para transmitir ao público a idéia de empenho pelas causas sociais como o combate à pobreza, ao trabalho infantil e ao analfabetismo, além da defesa do meio ambiente. Em 2003, a Souza Cruz foi premiada pela Câmara Municipal de São Paulo pela “atuação socialmente responsável” da companhia.

Há esforços da indústria do tabaco contra o consumo do cigarro entre os jovens e para promover medidas de prevenção ao tabagismo para menores de idade, criando campanhas e utilizando a idéia de que “fumar é para adultos”. Porém, ao apresentar o cigarro como “adulto” e “proibido”, essas companhias buscam colocar sutilmente um importante ingrediente para reforçar o comportamento rebelde do adolescente, pois entre as principais motivações para o adolescente fumar está o desejo de se afirmar como adulto, a rebeldia e a rejeição dos valores dos pais.

Essas estratégias funcionam de forma favorável aos interesses econômicos da indústria do tabaco. São estratégias contraditórias, pois não mudam o interesse dos jovens em consumir cigarros nem reduzem o consumo do tabaco entre eles, ao mesmo tempo em que beneficiam o setor tabageiro.

O Estudo Global do Tabagismo entre os Jovens, realizado pela Organização Mundial de Saúde – OMS em 46 países, revelou um quadro alarmante de dependência prematura. Em algumas áreas da Polônia, de Zimbábue e da China, crianças de 10 anos de idade já são dependentes do tabaco. Os adolescentes globalizados em Nova Iorque, Lagos e Pequim são vistos como alvos fáceis pelas multinacionais do tabaco. Tendo em vista que as marcas globais são veiculadas na propaganda como um estilo de vida a ser almejado, elas tendem a ser consumidas em larga escala, levando metade de seus usuários habituais à morte.

No Brasil este mesmo estudo foi realizado entre escolares de 12 capitais brasileiras nos anos de 2002 e 2003, e encontrou uma prevalência de experimentação variando de 36 a 58% no sexo masculino e de 31 a 55% no sexo feminino, entre as cidades. De acordo com o mesmo estudo brasileiro, a prevalência de escolares fumantes atuais variou de 11 a 27% no sexo masculino e 9 a 24% no feminino.

Mulher e tabaco

Com a participação cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, seu papel social também foi alterado rapidamente. A mulher passou a ter mais poder, tanto aquisitivo quanto de decisão, dentro da própria sociedade, onde já exercia um papel fundamental de modelo de comportamento para seus filhos.

Em decorrência de todas essas mudanças, a mulher tornou-se um dos alvos prediletos da publicidade da indústria do tabaco, que passou a divulgar o cigarro como símbolo de emancipação e independência. Isto fez e continua fazendo com que o número de fumantes, principalmente entre o sexo feminino, aumente na América Latina.

No Brasil, outro estudo realizado em 1997 entre estudantes de 10 capitais brasileiras mostrou que, em pelo menos sete capitais, as meninas têm experimentado cigarro em maior proporção que os meninos. A participação das mulheres no número de fumantes vem aumentando, sobretudo nas faixas etárias mais jovens.

Até algumas décadas atrás, acreditava-se que os efeitos da dependência do tabaco era mais forte nos homens, mas à medida que novas gerações de fumantes foram chegando, verificou-se que as mulheres são igualmente ou mais suscetíveis aos malefícios do fumo, devido às peculiaridades próprias do sexo como a gestação e o uso da pílula anticoncepcional. A mulher fumante tem um risco maior de infertilidade, câncer de colo de útero, menopausa precoce – em média 2 anos antes – e dismenorréia – sangramento irregular.
Autor: Instituto Nacional de Câncer
Fonte: OBID